Nas eleições gerais de 2022, o até então vice-prefeito
Victor Linhalis foi eleito para a Câmara dos Deputados como o 6º candidato mais
votado no Espírito Santo (entre os dez que entraram). Na campanha, ele contou com
o engajamento pessoal e maciço do prefeito Arnaldinho Borgo, sendo apresentado
à população, a todo instante, como “o federal do Arnaldinho”. Os dois então
estavam no mesmo partido, o Podemos.
Dos 53.483 votos obtidos por Victor Linhalis, 41.853 foram
dados em seções eleitorais de Vila Velha – quase 80% de sua votação. De cada
cinco votos nele, quatro vieram da cidade governada por Arnaldinho.
Agora, no pleito que se avizinha, a história será diferente.
No Partido Socialista Brasileiro (PSB), Victor será candidato a mais um mandato
na Câmara, mas dessa vez não poderá carregar a alcunha de “o federal do
Arnaldinho” (no singular). Nas eleições deste ano, o prefeito decidiu dividir
seus ovos em vários cestos: ajudará alguns aliados (plural) que disputam a
mesma eleição para deputado federal.
Na prática, isso significa que Arnaldinho dividirá suas
forças, distribuindo-as entre alguns candidatos. Em Vila Velha, o prefeito
lidera um verdadeiro exército de cabos eleitorais sob sua influência: vereadores,
líderes comunitários e uma legião de servidores comissionados.
Muitos deles ajudarão Emanuela Pedroso, a Manu (PSB),
ex-secretária estadual de Governo e grande aliada de Arnaldinho –
frequentemente vista ao lado dele em solenidades em Vila Velha desde os tempos
de governo Casagrande.
Outros “soldados de Arnaldinho” serão colocados a serviço da
campanha do presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Santos (União).
Outros tantos serão direcionados para a campanha de Josias da Vitória (PP). E
alguns aliados em comum vão colaborar com o ex-prefeito Neucimar Fraga (PL). Os
três são aliados de Arnaldinho e disputarão um lugar na Câmara.
Dessa vez, portanto, Victor não terá “contrato de
exclusividade”, por assim dizer. Não será “o candidato do Arnaldinho”. Será, no
máximo, um dos candidatos. No máximo.
Pessoas próximas ao prefeito dizem que a relação política
entre eles esfriou. Arnaldinho não vai atrapalhar seu ex-vice-prefeito... Seus
apoiadores que quiserem ajudar na campanha de Victor estão liberados para isso.
Mas ele mesmo não fará muita força pessoal para ajudá-lo a se reeleger... e
isso, convenhamos, é uma diferença radical em relação ao que se viu em 2022.
Ciente da nova conjuntura, Dr. Victor (seu nome de urna) passou
a intensificar sua presença em alguns municípios do interior, a fim de expandir
seu raio de votação e não ficar mais tão dependente dos votos de Vila Velha.
A nota oficial de
Arnaldinho
Questionado sobre seus apoios a deputado federal nesse
pleito, Arnaldinho respondeu com esta nota, enviada por sua assessoria:
“A definição dos apoios está sendo construída com
responsabilidade, diálogo e foco nos interesses de Vila Velha. Nosso
compromisso é fortalecer a representação da cidade em Brasília, ampliando a
rede de parceiros para viabilizar mais investimentos, recursos e projetos que
contribuam para melhorar a vida da população”.
Trecho-chave: “ampliando a rede de parceiros para viabilizar
mais investimentos”.
A turbulenta experiência
no PSDB
Vale lembrar que, na realidade, o partido de Arnaldinho é o
PSDB, presidido no Espírito Santo desde dezembro do ano passado. Mas, sob a
liderança do prefeito, o partido não conseguiu montar uma chapa à Câmara dos
Deputados no Estado.
Arnaldinho recebeu do presidente nacional, Aécio Neves, a
presidência do PSDB no Espírito Santo, no lugar do deputado estadual Vandinho
Leite, em dezembro. Como afiançou Aécio, o prefeito assumiu com carta branca
para buscar viabilizar sua candidatura a governador. Em troca, deveria entregar
à cúpula nacional uma boa chapa para a Câmara Federal.
Resumindo: deu tudo errado.
Arnaldinho desistiu de renunciar para ser candidato a
governador e, no fim de março, anunciou a decisão de completar seu atual
mandato na prefeitura. Acabou optando por apoiar Ricardo Ferraço (MDB).
A chegada de Arnaldinho à presidência, pelo modo como se deu,
desencadeou uma debandada de tucanos no Espírito Santo. Deputados estaduais, prefeitos
e vice-prefeitos saíram do partido. Entre os prefeitos, só ele restou.
Quanto à “encomenda” de Aécio, em meados de março,
Arnaldinho chegou a apresentar um rascunho de chapa, com Neucimar, Luiz Paulo Vellozo
Lucas e Victor Linhalis (que era a coluna cervical).
Aliás, o malsinado capítulo PSDB na história dos dois ajuda
a explicar o recente distanciamento.
Para salvar a própria candidatura, após Arnaldinho anunciar que não seria candidato a governador, Victor desistiu de entrar no partido do prefeito. No finzinho do prazo legal para filiações de candidatos (4 de abril), ele entrou no PSB de Renato Casagrande. Foi o tiro de misericórdia na chapa do PSDB para a Câmara. No dia seguinte, Neucimar Fraga foi para o PL.
A chapa
morreu ali.
O modo como isso ocorreu deixou mágoas. Não foi muito bem
resolvido entre eles.
Mas foi aquela típica situação em que não havia muito o que
fazer.
Victor acompanhou Arnaldinho no projeto de criar um novo
PSDB no Espírito Santo, à feição do prefeito. Mas o projeto derreteu em poucos
meses. E, se fosse candidato a deputado pelo PSDB, sem companheiros de chapa
minimamente competitivos, Victor teria de ir para o sacrifício, numa
candidatura kamikaze.
Agora, por outro lado, Arnaldinho não se sente mais obrigado
a apoiá-lo como fez em 2022.
O distanciamento entre ambos pode ter implicações até na
sucessão de Arnaldinho em 2028. Até dois ou três meses atrás, Victor era
tratado no meio político como principal aposta de Arnaldinho para ser seu
candidato a prefeito nas próximas eleições municipais.
Agora, essa hipótese perde força. E perderá ainda mais caso
Victor não consiga se reeleger.
A força de Victor em
Vila Velha em 2022
Só em Vila Velha, Dr. Victor alcançou 41.853 votos em 2022.
O segundo mais votado para federal no município, Devacir
Rabello (PL), não chegou à metade dessa marca, com 16.454 votos na cidade. Seja
por concentração de votos, seja por influência direta de um prefeito, o caso só
guarda paralelo com o de Messias Donato, candidato a federal de Euclério
Sampaio no mesmo ano.