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Pandemia

No passado, o futuro parecia mais promissor

Reconhecer equívocos cometidos no passado pode ser um bom começo para que a sociedade e governos superem o delicado momento pelo qual passam a saúde pública e a economia do Espírito Santo

Públicado em 

25 mar 2021 às 02:00
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

Movimento na Avenida Expedito Garcia, em Campo Grande, um dia antes da quarentena contra o avanço da Covid-19
Em 2020, mesmo diante de uma situação que se deteriorava a cada dia, o governo estadual fez concessões ao comércio e, semanas depois, os números de casos e mortes aumentaram Crédito: Fernando Madeira
Há um ano o portal https://www.es.gov.br/Noticia/boletim-sala-de-situacao-19-03-2020 comunicava: “O governador do Espírito Santo, Renato Casagrande, liderou uma nova reunião da Sala de Situação de Emergência em Saúde Pública, nesta quinta-feira (19), no Palácio Anchieta, em Vitória. Foram anunciadas novas medidas de prevenção à disseminação do novo coronavírus (Covid-19), como a determinação do fechamento de todos os parques estaduais, municipais e privados pelo prazo de 15 dias. O governador recomendou ainda que as praias não sejam frequentadas durante o período de isolamento social. Também deverá ser suspenso o atendimento presencial em todas as agências bancárias (públicas e privadas) pelo mesmo prazo a partir da próxima segunda-feira (23)”.
Apesar destes cuidados, o número de infectados pulou de 40 em 25/03/2020 para 273 em 08/04, quando foram registradas seis mortes acumuladas. Aí veio a Páscoa, o governo cedeu à pressão de produtores de ovos de chocolate e de quem os comercializa e o resultado veio como alertado por epidemiologistas: os casos registrados até 26 de abril já superava a casa dos 1.800 e o número de mortos se aproximava de 60.
Mesmo diante de uma situação que se deteriorava a cada dia, o governo estadual fez novas concessões ao comércio em nome da celebração do Dia das Mães. Três semanas após o comprismo – que alguns equivocadamente insistem ser fundamental para dinamizar a economia – que caracteriza a data, o número de casos registrados superou os 13 mil e o de óbitos chegava próximo aos 600.
O indicador taxa de transmissão que começou a melhorar no segundo semestre de 2020 voltou a se deteriorar no final de outubro. No dia 30 daquele mês, a epidemiologista e professora da Ufes Ethel Maciel constatava: “... nesta última semana, logo após o feriado de 12 de outubro, a gente começou a ver tanto no interior quanto na Grande Vitória um aumento [da taxa de transmissão] para cima de 1. Ainda estamos em 1,1 e 1,2, mas é algo que a gente precisa ficar alerta”.
Ou seja, a cada omissão de governantes em datas que normalmente estão ligadas a dar presente, a viajar, a se aglomerar em bares, festas etc., em aproximadamente duas semanas resultava no aumento da taxa de infecção e em três no número de óbitos.
E foi no crescendo de omissões e cumplicidades entre governantes, segmentos empresariais e negacionistas, que a saúde pública no Espírito Santo chegou onde está neste pouco mais de um ano desde que a Covid-19 por aqui chegou. Em 16 de março de 2021, o governador Casagrande admitiu publicamente que o Estado estava vivendo “...o pior momento da pandemia”, o que justificava para ele “... um pouco de restrições entre 18 e 31/03... não é um lockdown porque estamos pedindo uma restrição da mobilidade para oferecer o atendimento adequado nos hospitais.”
Ou seja, restrições, mesmo quando poucas, só quando o atendimento a doentes chega próximo do limite da capacidade hospitalar instalada. A prevenção proposta por especialistas daqui e do mundo todo, continua sendo relegada. Muito pouco ou quase nada se viu em termos de melhorias nas condições de habitação e  saneamento básico em favelas e bairros pobres. Nada foi feito para que diminuísse a circulação de automóveis e para que melhorasse o transporte público para prevenir a transmissão do vírus entre seus usuários: a grande maioria da população que dele depende para trabalhar.
As articulações dos governos estadual e municipais concentraram-se majoritariamente em entidades e federações empresariais que, na maior parte do tempo, pouco representam os interesses genuínos de micro, pequenas e médias empresas. Iniciativas populares de cuidar do próximo são relegadas a um segundo plano quando alguma medida assistencialista é pensada por instâncias governamentais.
Reconhecer equívocos cometidos no passado pode ser um bom começo para que a sociedade e governos superem o delicado momento pelo qual passam a saúde pública e a economia capixabas. Há que se reconhecer que dissociar uma da outra é erro primário que levou o Estado ao ponto em que está.
E mais, assumir que todos são responsáveis pelo cuidar de si, do próximo e do meio ambiente sob hipótese alguma isenta as estruturas do poder público de cumprirem suas obrigações para com o bem comum. Cumprimento de obrigações que nem sempre são simpáticas a minorias barulhentas. Governantes precisam ir muito além de mensagens simpáticas em redes sociais e entrevistas coletivas.
Governar é por definição agir na medida e na intensidade necessárias a um efetiva resposta ao estado de emergência e urgência como o que vive o Espírito Santo, sua gente e suas coisas.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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