Há mais de um século a formação socioeconômica capixaba é pautada pela destruição. Por um lado, destruição do meio ambiente com o ciclo mata-café-pasto que caracterizou a principal atividade econômica por mais de setenta anos e que resultou na quase total devastação da Mata Atlântica no território capixaba. Destruição do meio ambiente que também caracterizou o ciclo de industrialização retardatária que assumiu o principal vetor de dinamismo econômico a partir dos anos 1980 e que provocou inchaço de cidades; exclusão social; e poluição de águas, ar e terra.
Por outro lado, esses foram tempos em que se aprofundaram o descaso para com a população originária; com os afrodescendentes; e com culturas diversas que caracterizavam a vida rural no Estado. A urbanização forçada através de processos migratórios internos e externos para atender os interesses imediatos do crescimento econômico resultou em cidades onde prevalecem bolsões de pobreza e em afastamento social dos que podem pagar para viverem em condomínios cada vez mais fechados.
Os sinais de que o ciclo do crescimento concentrado era insustentável social, econômica e ambientalmente há muito foram dados. A privação da maioria da população de tudo o que se pode chamar de direito à cidadania – moradia, saúde, educação, trabalho, renda, lazer cultura etc. — resultou em cidades onde tanto os que têm quanto os excluídos se sintam inseguros, ainda que por razões diferentes.
Os empregos prometidos pelos chamados grandes projetos e os que deles se derivaram, foram diminuindo em função de mudanças tecnológicas. E a maneira como esses projetos veem o meio ambiente — lixeira para seus resíduos — torna rios, mar e ar focos de doenças para toda a população, principalmente dos mais pobres.
Isso foi saltando à vista de quem se dispunha a olhar e ver e se tornou incontestável com os crimes ambientais da Vale em Mariana e seus desdobramentos ao longo do vale do Rio Doce e da costa capixaba. E com o pó preto que mais do que sujar provoca doenças.
A pandemia da Covid-19 trouxe a furo outros tumores que há muito adoecem o tecido social capixaba. Falta habitação, saneamento, atendimento médico-hospitalar, transporte público, lazer para a maioria da população do estado. Além dessas ficou clara também a exclusão digital ampliada já que nessa somam-se segmentos da classe média sem acesso a serviços e equipamentos com qualidade e preços compatíveis para quem precisa manter o afastamento físico fundamental para que a pandemia seja contida.
Do lado econômico, os mais prejudicados com a pandemia provocada pelo vírus e o pandemônio que dela resultou em função da omissão de governantes tanto em nível federal, quando do estado e dos municípios, foram os de sempre: desempregados, sem oportunidades de trabalho e todo o segmento empresarial representado pela maioria dos que — no campo e nas cidades — conduzem micro, pequenas e médias atividades.
Ao mesmo tempo em que amplia questões históricas, a crise gera oportunidades para a construção de utopias para a sociedade capixaba. A utopia da inclusão social que a pode tornar mais digna. Dignidade que pode se materializar na segurança alimentar — entendida como acesso a comida com qualidade para todos. No campo e na cidade essa segurança pode vir através da compra por prefeituras e governo estadual da produção agroecológica da agricultura familiar e da disponibilidade de áreas públicas para a implantação de hortas comunitárias.
Dignidade que pode ser efetiva através de frentes de trabalho em favelas e bairros pobres voltadas para dar acesso a seus moradores a habitação, saneamento, postos de saúde, escolas, áreas de lazer e convivência social. Frentes de trabalho em escala das cidades como um todo com o objetivo de melhorar o acesso de toda a população a calçadas, praças, ciclovias, transporte público com prioridade nas principais vias através de faixas exclusivas.
Novas fontes de trabalho que podem surgir através de compras públicas que se façam através de pregões eletrônicos que facilitem o acesso de micro, pequenas e médias empresas locais produtoras de bens e serviços. Novas fontes de trabalho que contemplem serviços intensivos em conhecimento (design, marketing, logística, TI, microcrédito) que podem ser oferecidos por habitantes de territórios mas que para que tal aconteça precisam ter acesso a serviços de tecnologias da informação e comunicações.
Dignidade que gera trabalho; trabalho que gera renda melhor distribuída; renda distribuída que impulsiona o círculo virtuoso de inclusão social-qualidade de vida-sustentabilidade ambiental, social e econômica; virtuosidade enquanto plataforma para uma outra forma dos humanos se relacionarem entre si e com os demais seres viventes.
Isso pode começar por quem assume o poder municipal quando o calendário gregoriano mudar de ano. Prefeitos e vereadores recém-eleitos podem colocar em marcha a construção da utopia de um mundo melhor para todos através de um movimento de baixo para cima; partindo do território onde cada um vive.
Utopia que vem da poesia que se pode pedir emprestada; da reza que faz chover sabedoria; do cartaz que anuncia a rebeldia; do pomar onde se planta teimosia; do quintal onde se rebela contra a tirania e de onde se parte pra rua a gritar a palavra u t o p i a. Tudo inspirado em Jonathan Silva (compositor capixaba, autor do ‘Samba da utopia’ que serve de oração por tempos diferentes e melhores) e em tantos outros que estão prontos para colocar a mão na massa e construir o diferente onde todos possamos bem viver.