A volta do calendário a partir de 20 de novembro e até 10 de dezembro é plena de celebrações de movimentos iniciados em locais e tempos distintos, mas que se interconectam em função da centralidade dos seres humanos neles. Identifica singularidades de quem compõe o rico mosaico da humanidade tão essencial para que um novo normal surja aqui e agora antes mesmo da disponibilização de vacinas contra a Covid-19 para todos.
A celebração do Dia da Consciência Negra no dia 20 de novembro deu início a uma agenda que busca dar significado histórico a caminhos percorridos contra diversos tipos de intolerância. Aquela contra afro-decendentes no Brasil é registrada na data de morte de Zumbi. Líder do Quilombo dos Palmares, que no final do século XVII ocupava área equivalente à de Portugal e que chegou a abrigar cerca de 30 mil escravos foragidos das crueldades a que eram submetidos nas fazendas de cana e nos engenhos de açúcar na então Capitania de Pernambuco.
Mais de três séculos se passaram antes do reconhecimento oficial, em 2003, do vergonhoso legado da escravidão e da exclusão social de negros na sociedade brasileira que sucedeu à oficialmente intitulada Lei Áurea de 1888. Reconhecimento feito enquanto efeméride incluída no calendário escolar e que precisa mobilizar toda a gente brasileira contra o débito social, político e econômico que o país tem com a maioria de sua população que é afrodescendente e que ainda hoje se encontra à margem de seu crescimento.
O 25 de novembro marca o Dia Internacional Contra a Violência com as Mulheres. Estabelecida no Primeiro Encontro Feminista Latino- Americano realizado em Bogotá, Colômbia, em 1981, em homenagem às três irmãs Mirabel brutalmente assassinadas pelo ditador Trujillo, da República Dominicana, naquele dia em 1960.
Em 1999 a Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) proclama o 25 de novembro como o Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra a Mulher, em reconhecimento de um fenômeno presente em todo o mundo, em todas as classes e que macula a todos comprometidos com a igualdade de gênero.
O 6 de dezembro marca o massacre de 14 mulheres na Escola Politécnica de Montreal, no Canadá, em 1989, levado a cabo por um jovem de 25 anos que se identificava como lutando contra o feminismo. A data foi escolhida como referência para o Movimento Homens Contra a Violência com as Mulheres em claro reconhecimento que o combate ao fenômeno histórico diz respeito, e muito, aos homens.
A agenda ao longo de 21 dias se encerra em 10 de dezembro quando, em 1948, a ONU oficializou a Declaração Universal dos Direitos Humanos:
"Ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, ..., se esforcem, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universal e efetiva, tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros, quanto entre os povos dos territórios sob a sua jurisdição."
Em cada uma dessas datas há que se contemplar avanços e retrocessos na busca pela igualdade entre raças e gêneros; igualdade entre humanos; e cada vez mais o respeito deles para com os demais seres viventes. É bom lembrar que avanços têm sido seguidos por retrocessos e há que se questionar o porquê dos recuos.
Recuos provocados por forças reacionárias apegadas a privilégios históricos — de homens, brancos, herdeiros de fortunas geralmente conquistadas através da exploração de humanos e da natureza, com a conivência de poderes constituídos. O que é pior, através de mecanismos sutis de imposição do medo essa minoria ganha adesão de outros segmentos sociais.
Ainda que injustificável do ponto de vista ético e econômico, o desrespeito a direitos humanos, de maneira geral, e a mulheres e etnias diversas, de forma específica, ganha força nestes tempos de pandemia da Covid-19. O engajamento em movimentos históricos de oposição ao racismo, a todo tipo de violência contra as mulheres e toda e qualquer violação dos direitos humanos deve ser visto como o mais efetivo reconhecimento que o novo normal tem que estar embasado no combate a privilégios de uma minoria e no reconhecimento de direitos sociais, políticos e econômicos de todos os seres humanos.
Reconhecimento de direitos humanos e demais seres viventes necessários à própria sobrevivência da sociedade como se conhece há milênios.