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Coronavírus

Pandemia deixou evidentes políticas e modelos discriminatórios

Para sair da crise, governos e grandes grupos devem se pautar não apenas em políticas monetárias, cambiais e fiscais, mas especialmente em políticas de inclusão social

Publicado em 01 de Dezembro de 2020 às 05:00

Públicado em 

01 dez 2020 às 05:00
Cássio Moro

Colunista

Cássio Moro

Prefeituras deverão ter uma redução de 15% na receita própria não vinculada, segundo a Aequus Consultoria
Pequeno empresário foi o mais afetado na crise Crédito: Freepik
Antes da pandemia mundial gerada pela Covid-19, o país contava com 51,74 milhões de brasileiros (quase um quarto da população) vivendo abaixo da linha da pobreza (segundo critérios do Banco Mundial para países de renda média-alta). Essa linha conta com um teto de renda mensal de R$ 436. Entre os ainda mais pobres, na linha extrema, cuja renda é de até R$ 151 por mês, estão 13,69 milhões de brasileiros (6,5% da população, segundo o IBGE).
Como bem analisou Pedro Fernando Nery (Estadão, 20.10.2020), com o auxílio emergencial evitou-se que outros 20 milhões de brasileiros caíssem para a linha da pobreza, além de o benefício ter tirado outros 10 milhões (daqueles 51,74 milhões). Um respiro temporário, já que o programa tende a se extinguir em 31 de dezembro, caso o governo não encontre um sustento consistente para o programa Renda Cidadã.
Marcelo Neri, da FGV Social, estima que em 2021 cerca de um terço da população deverá ter renda não superior a meio salário-mínimo (cuja previsão inicial do governo é de R$ 1.079). A economista Monica de Bolle e a socióloga Letícia Bartholo projetam que esse terço viverá com não mais que um terço do salário-mínimo. De fato, se considerarmos os então 51,74 milhões, somados aos 20 milhões que ainda não entraram, temos quase isso. Somam-se os próximos desempregados e desalentados que vêm aumentando a cada dia, facilmente chegaremos ao terço de miseráveis brasileiros que recebem um terço do mínimo.
Sob outra perspectiva, a pandemia tem excluído mulheres mães do mercado de trabalho, notadamente de 25 a 34 anos de idade. Entre os motivos, segundo James Hookway (Valor, 27.11.2020), há o impacto direto no setor de serviços, como varejo, alimentação e cuidados pessoais, que tem alta concentração de mulheres trabalhadoras e é deveras vulnerável a políticas de quarentena e distanciamento social.
Ainda mais grave é a suspensão das atividades escolares. Seja porque a sociedade ainda delega majoritariamente as funções domésticas e de criação da prole às mulheres, seja porque, quando um dos pais tem que sair do emprego para ficar com os filhos, normalmente é a mulher que renuncia à carreira, já que, em regra, é menos remunerada que o homem. Por um ou por outro, o preconceito impera. O primeiro-ministro britânico Boris Johnson foi enfático: “Manter nossas escolas fechadas por um momento a mais do que o absolutamente necessário é socialmente intolerável, economicamente insustentável e moralmente indefensável” (Valor, 27.11.2020).
Como terceira questão, tem-se que o pequeno empresário foi o mais afetado na crise, se não fechou as portas terá recuperação mais lenta. A conclusão é de um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Portal G1, 21.07.2020). Segundo o levantamento, pequenos empresários têm índice de confiança mais baixo, o que dificulta obter empréstimos, e a recuperação da demanda é mais fraca, uma vez que possuem uma margem de manobra bem menor de atuação, comparadas aos grandes grupos.
O que se pode perceber das três perspectivas é que não tratam tão somente de problemas gerados pela crise sanitária da Covid-19. Ao contrário, a calamidade deixou ostensivos os entraves, que de um jeito ou de outro, orbitam entre políticas e modelos discriminatórios e a mazela humana. Para sair da crise, os grandes players (governos e grandes grupos) devem se pautar não apenas em políticas monetárias, cambiais e fiscais, mas, especialmente, em políticas de inclusão social.

Cássio Moro

É juiz do Trabalho, doutorando em economia, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e economista. Professor de graduação e pós-graduação da FDV. Neste espaço, busca fazer uma análise moderna, crítica e atual do mercado e do Direito do Trabalho

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