O acordo de livre comércio entre Mercosul e a União Europeia começou a vigorar de forma provisória nesta sexta-feira (1/5), após mais de 25 anos de negociações — criando uma das maiores zonas de livre comércio do mundo e abrindo caminho para mudanças nos preços de produtos no Brasil.
O acordo insere o Brasil em um mercado de mais de 700 milhões de consumidores, em um bloco que reúne economias com PIB combinado de cerca de US$ 22 trilhões.
Embora a implementação ocorra de forma gradual, os impactos já começam a aparecer.
Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), mais de 80% dos produtos exportados pelo Brasil para a União Europeia passam a ter tarifa de importação zerada desde o início desta etapa.
Para os brasileiros, analistas projetam que o acordo Mercosul-UE pode significar uma redução no preço de alguns produtos importados, como vinhos, azeites, queijos e outros lácteos.
Também é esperada a chegada de algumas marcas que não eram comercializadas no país, como a de alguns chocolates premium.
Uma redução de preços também poderá acontecer com outros itens, como veículos, medicamentos e insumos para o agro (como maquinários e produtos veterinários).
Já nas exportações, a tendência é que produtos agropecuários e calçados brasileiros cheguem com mais facilidade (e menos taxas) aos países europeus.
As negociações entre os blocos tinham chegado a um impasse, que só foi destravado no final de 2025, quando o Parlamento Europeu aprovou salvaguardas para proteger produtos agrícolas europeus.
As salvaguardas são mecanismos que haviam sido sugeridos pela França como forma de proteger os agricultores do país contra uma possível invasão de produtos agrícolas do Mercosul, em especial de carne.
Elas definem em quais circunstâncias a União Europeia poderia suspender temporariamente as vantagens tarifárias concedidas ao Mercosul.
O que é o acordo Mercosul-UE e quais impactos ele pode ter?
O acordo Mercosul-UE prevê a redução de tarifas comerciais e a facilitação de investimentos entre os dois blocos, que englobam mais de 700 milhões de pessoas e formarão uma das maiores áreas de livre comércio do mundo.
A principal expectativa é que a parceria alavanque o comércio entre os dois continentes e seja um instrumento de fortalecimento das duas regiões, em um mundo cada vez mais polarizado entre China e Estados Unidos.
O acordo prevê a redução de tarifas de importação, que pode ser imediata ou gradual (em até 15 anos), a depender dos setores.
Essa liberação vai atingir 91% dos bens que o Brasil importa da União Europeia e, do outro lado, 95% dos bens que o bloco europeu importa do Brasil.
Quando entrar em vigor, o acordo vai alavancar alguns setores brasileiros (principalmente o agronegócio) e pode prejudicar outros, mas governo e economistas têm uma visão otimista sobre o saldo desse impacto para o crescimento do país.
Além disso, pode beneficiar o consumidor, com o potencial barateamento de produtos importados, como azeites, queijos, vinhos e frutas de clima temperado (frutas secas, peras, maçãs, pêssegos, cerejas e kiwis).
Esse impacto, porém, vai ser gradual e pode ser compensado por outros fatores que afetam os preços dos produtos, como a taxa de câmbio, ressalta o economista Felippe Serigatti, pesquisador da FGV Agro.
Fernando Ribeiro, coordenador de estudos de comércio internacional do Ipea, ressalta que o principal impacto nos preços do consumidor será indireto, ao deixar a produção brasileira mais barata, devido à importação de máquinas e insumos a preços menores.
"E quando a gente vê os produtos cuja importação mais cresce [nas simulações sobre o impacto do acordo], são exatamente máquinas, equipamentos elétricos e outros itens usados como insumos para produção industrial", reforça Ribeiro.
Entre os itens que passam a entrar no mercado europeu sem tarifas estão o café solúvel, óleos vegetais e diferentes tipos de frutas frescas. Produtos como carne bovina, aves e açúcar também serão contemplados, mas dentro de limites definidos por cotas, com alíquotas reduzidas.
Diante da pressão de produtores europeus — especialmente da França —, o acordo entra em vigor de forma provisória e acompanhado de salvaguardas.
Embora parte dessas mudanças já comece a valer, os efeitos mais amplos sobre preços, competitividade e investimentos tendem a aparecer ao longo dos próximos anos, à medida que a redução de tarifas avança setor a setor.
Por ter caráter provisório, a aplicação das regras ainda pode sofrer ajustes ao longo do tempo, o que adiciona um grau de incerteza para empresas e investidores no curto prazo.
Além disso, a continuidade dos benefícios comerciais está condicionada ao cumprimento de compromissos ambientais, uma exigência central da União Europeia que pode influenciar diretamente o futuro do acordo.
Impactos na economia brasileira
Um estudo divulgado em 2024 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontou que o acordo Mercosul-UE pode ter impactos positivos sobre o Produto Interno Bruto do Brasil (PIB).
Segundo a pesquisa, entre 2024 e 2040 o PIB do país teria um aumento acumulado de 0,46%, o equivalente a US$ 9,3 bilhões por ano.
Para elaborar o estudo, os pesquisadores do Ipea utilizaram projeções de crescimento econômico do Fundo Monetário Internacional (FMI) entre 2014 e 2026 e replicaram as taxas de crescimento para os anos seguintes, até 2040.
O estudo também aponta que o Brasil pode ter um aumento de 1,49% nos investimentos.
A dinâmica das importações e exportações também pode ser transformada.
As importações brasileiras podem crescer rapidamente nos primeiros anos do acordo, atingindo um pico de US$ 12,8 bilhões em 2034, antes de recuar para US$ 11,3 bilhões em 2040.
Já as exportações podem ter um aumento contínuo no mesmo período, alcançando um ganho acumulado de US$ 11,6 bilhões.
Esse movimento pode ser impulsionado por fatores como a redução de tarifas na União Europeia, concessões de cotas de exportação e queda nos custos domésticos de insumos e bens de capital, o que tornaria os produtos brasileiros mais competitivos no mercado global.
Quando o acordo com o Mercosul foi aprovado pelo Conselho Europeu, na primeira semana de 2026, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também destacou os impactos positivos que isso traria para os países do continente.
"As exportações da UE para o Mercosul devem crescer quase 50 bilhões de euros [R$ 311,5 bilhões] até 2040, enquanto as exportações do Mercosul, por sua vez, poderão aumentar em até 9 bilhões de euros [R$ 56 bilhões]", calculou ela.
*Com informações de reportagem publicada em janeiro de 2026
- Acordo Mercosul-UE é assinado e cria uma das maiores zonas de livre comércio do mundo: entenda o que pode ficar mais barato no Brasil
- 'Grande vitória', 'histórico' e 'ajuda de Trump': a repercussão do acordo UE-Mercosul na imprensa internacional
- 'EUA têm que nos respeitar e não podem nos tratar como quintal', diz Celso Amorim