Sem cidades são pessoas sem acesso a coisas básicas para uma vida digna em territórios que identificamos como urbanos. A elas falta trabalho, acesso à renda necessária para pagarem por serviços básicos: alimentação, moradia, saneamento, saúde, educação transporte. A elas são negadas políticas públicas que minimamente compensem processos históricos de exclusão econômica, social e política.
Sem cidades são pessoas com bagagem econômica, social e cultural mais do que suficiente para desfrutarem de convivência, bens, serviços e conhecimento, mas que, ainda assim, se isolam em espaços fisicamente protegidos. Seja para morarem, seja para trabalharem, seja para interagirem socialmente com outros por elas consideradas diferente delas.
Sem cidades são mais de 50% da população composta por mulheres a quem, independentemente da escolaridade, renda, classe social e etnia, lhes é negado o direito de circularem com segurança a qualquer hora, em qualquer lugar das cidades. São também sem cidades mais de 20% de homens que por serem jovens ou idosos demais, portadores de deficiências de mobilidade ou visual, correm riscos ao circularem pelas cidades que priorizam o fluxo de automóveis, inclusive em calçadas.
Cresce no mundo o número dos sem cidades. Por um lado, entre os cada vez mais excluídos de tudo o que é intermediado pelo mercado. Sem poder aquisitivo, suas necessidades — ainda que básicas — são consideradas, no máximo, objeto de filantropia. Por outro, entre os que têm renda, mas se sentem permanentemente sob ameaças e riscos. Seja no morar, seja no trabalhar, seja no lazer/entretenimento, seja nos deslocamentos. Buscam a proteção de muros físicos e imaginários que as permitem conviver com "iguais" — seja lá o que isso for.
Na falta de espaços de interação entre diferentes, seja na circulação, seja no compartilhamento de áreas de uso comum — independentemente de renda, escolaridade, etnia, sexo —, as cidades vão perdendo sua essência: a capacidade de aproximar pessoas de tal forma a gerar processos sinergéticos onde o todo é maior do que a soma das partes. Sejam eles econômicos, sejam políticos, sejam sociais.
O resgate do direito à cidade por tantos quanto nela vivem deve ser visto como uma possibilidade de compor a agenda voltada para um novo normal. Agenda tanto para a inclusão dos que se encontram à margem de processos econômicos, culturais e políticos quanto daqueles que se sentem acima desses processos ou por eles ameaçados objetiva ou subjetivamente.
Agenda que dificilmente compõe a pauta de processos eleitorais. Mesmo em economias mais ricas onde a questão dos sem cidades — excluídos ou a elas indiferentes — é discutida há algum tempo, o tema ainda se restringe a circuitos acadêmicos e profissionais.
Daí a busca de valorizá-lo neste momento de volta da epidemia em diversos países e de aprofundamento do pandemônio no Brasil. Valorização que cabe no debate plural que deve alimentar discussões sobre o novo normal e que cairiam como uma luva em eleições municipais.