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Eleições e educação

Cumprindo tabela: o perigoso jogo do faz de conta

Difícil imaginar que nas filas dos locais de votação serão respeitadas as regras de distanciamento físico recomendadas

Publicado em 08 de Outubro de 2020 às 05:00

Públicado em 

08 out 2020 às 05:00
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

Urna eletrônica usada nas eleições brasileiras
Manter as eleições é apenas um evento para cumprir a tabela do processo eleitoral Crédito: Nelson Jr./Ascom/TSE
É do jargão do futebol "cumprir a tabela", ou seja, nada mais pode ser feito, o campeonato está decidido e qualquer esforço será desprovido de efetividade. Essa é a sensação de quem observa as idas e vindas em termos do calendário escolar.
Todas as recomendações de quem estuda e busca entender os efeitos da Covid-19 são no sentido de ser respeitado o distanciamento físico entre pessoas; ou seja, evitar aglomeração de pessoas. A atividade escolar presencial implica necessariamente em convívio fisicamente próximo de professores e alunos. Convívio de difícil controle em se tratando principalmente de jovens que mantêm-se próximos para conversarem, brincarem, compartilharem saberes e aprendizados.
Isso geralmente acontece em espaços restritos e constituídos por construções e áreas livres para convivência sabidamente insuficientes para que o contato entre pessoas se dê conforme as orientações de quem entende da pandemia e de suas formas de expansão.
Convivência social distribuída em calendários desenhados para cumprirem grades curriculares voltadas para uma padronização de formação escolar mais voltada para interesses comerciais e políticos do que aqueles da efetiva educação de jovens e adultos. Esses interesses convergem de forma perversa com as dificuldades de mães e pais acompanharem filhos em atividades à distância. Seja pelo espaço limitado em residências e precariedade do acesso à internet; seja pela necessidade de trabalho de mães, pais e muitas vezes dos jovens fora de casa.
Políticas governamentais voltadas para soluções coletivas para essas questões são fundamentais, mas só podem acontecer onde e quando deixar de prevalecer o jogo do faz de conta tão marcante entre os poderes constituídos.
Na mesma toada, corre solta a campanha eleitoral para cumprir com o calendário de escolha de ocupantes do Executivo e do Legislativo em nível municipal. Em nome dos que chamam de regra democrática, as campanhas repetem a busca de votos de sempre, com abraços, apertos de mão e conversas ao pé do ouvido.
Difícil imaginar que nas filas dos locais de votação serão respeitadas as regras de distanciamento físico recomendadas por quem se preocupa com a saúde pública em tempos de pandemia. Tudo em nome de um evento para cumprir a tabela do processo eleitoral.
Cumprimento de tabelas como se a finalidade maior da educação fosse enquadrável em um calendário escolar e em grades curriculares. Respeito a datas fixadas antes da pandemia como se o instrumento único da cidadania fosse o voto obrigatório.
Finalidade da educação e direito à cidadania que já careciam de um debate amplo antes mesmo da pandemia provocada pela Covid-19. Carência ampliada em função dos impactos sociais e econômicos da doença. Impactos que precisam ser debatidos em espaços voltados para a educação e para os embates políticos muito além do certo e errado de fundamentalismos que esgarçam cada vez mais o tecido social, retardam a recuperação sustentável da economia e transferem para gerações futuras o alto custo da degradação ambiental autorizada por quem deveria cuidar do interesse público.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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