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É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

Agora sim foi dada a largada pra valer para as eleições municipais

A polarização é estratégia para chegar ao segundo turno e esvaziar candidaturas de centro. Neste combate, os centristas vão puxar a narrativa para temas locais e demandas reais da população. Eis aí a convivência disruptiva

Publicado em 03/10/2020 às 05h00
Atualizado em 03/10/2020 às 05h01
Urna eletrônica
Decisão dos eleitores na urna eletrônica mostrará rearranjo de forças políticas. Crédito: Nelson Jr./Ascom/TSE

Na largada, as eleições mostram, no país, uma tensão disruptiva entre desejo de polarização e imperativo de solução das aflições locais. A convivência disruptiva entre a realidade paralela e a realidade dos imperativos cotidianos. O mundo das ordens imaginadas e o mundo da saúde, da educação, da mobilidade urbana, do desemprego e da incapacidade de entregas dos governos locais.

A toada da polarização de 2018 ecoa em grandes cidades, nessa largada. Com apoio de Bolsonaro e de Lula, ela está presente no Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo. A polarização é estratégia para chegar ao segundo turno e esvaziar candidaturas de centro – como as de Bruno Covas em SP e de Eduardo Paes no RJ. Neste combate, os centristas vão puxar a narrativa para temas locais e demandas reais da população. Eis aí a convivência disruptiva.

Antônio Carlos Medeiros

Articulista

" Entre a narrativa nacional (polarização) e a narrativa local (serviços), essas eleições são diferentes de todas as outras. Mas desta tensão nacional/local podem resultar duas macro repercussões políticas concretas"

Também, as limitações da pandemia podem ser disruptivas em outro sentido: sem emoções e povo sintonizado, a alienação eleitoral e a desesperança colocam água fria na fervura. As primeiras pesquisas qualitativas mostram clima de eleição morna, sem entusiasmo. Pesquisadores vaticinam o crescimento das abstenções. Muita gente não vai sair de casa para votar.

Nesta tensão entre o “pão e circo” da polarização e o “pão com manteiga” do mundo real, a massa de eleitores que se identificam com o “somos 70%” pode mitigar a tensão. Num processo político-eleitoral inédito de apenas 50 dias, uma espécie de corrida de 100 metros, essa massa de eleitores pode fazer as narrativas convergirem para ajustes de última hora: no final, os candidatos vão entregar o que para diminuir as rejeições e as perspectivas de abstenções? Só a polarização ideológica, que não entrega nada de concreto no mundo das aflições locais?

Entre a narrativa nacional (polarização) e a narrativa local (serviços), essas eleições são diferentes de todas as outras. Mas desta tensão nacional/local podem resultar duas macro repercussões políticas concretas.

No plano regional, podem levar a novo rearranjo de forças políticas em alguns Estados. Em SP, no RJ e no ES, por exemplo. Aqui, a “agenda oculta” dessas eleições locais é a acumulação de forças para a sucessão de 2022. Disputam a hegemonia política os polos liderados pelo governador Casagrande; pelo presidente da Ales, Erick Musso; pelo Hartunguismo; e pela direita bolsonarista de raíz do ex-deputado Manato.

No plano nacional, o calendário eleitoral é uma ponte entre o mundo institucional e o povo. Uma centelha que pode acender a união nacional para um novo contrato social no país. Depois das eleições locais, vai começar para valer o jogo da recomposição das forças políticas nacionais e da agenda do Brasil. Assim, elas poderão dar início à formação de novas alternativas de poder.

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