Na ausência de medidas que motivassem o isolamento social – passo fundamental no combate à Covid-19, conforme indicam cientistas e especialistas em saúde pública – o sofrimento social e a perda de vidas só têm aumentado no Espírito Santo. Situação que só tende a se agravar, pois a lógica adotada pelo governo estadual é a de se preparar para a doença – número de leitos – quando a experiência indica que a melhor forma de preservar a saúde é evitar o contágio.
Medida preventiva que exige a diminuição na circulação de pessoas e que vem sendo evitada pelos governos estadual e municipais por dois motivos lamentáveis. O primeiro, usa a tática de passar a responsabilidade para a esfera superior. Prefeitos – na maioria dos casos - ficam à espera de ação do governo estadual, que justifica sua falta de efetividade em função do comportamento irresponsável do presidente República. Diante disso, pouco é feito e tanto o contágio quanto as mortes só fazem subir e se espalhar por todo o território capixaba.
O segundo motivo usa a estratégia de passar a responsabilidade para as principais vítimas tanto da pandemia quanto da crise econômica, esta instalada e se agravando desde 2015. Como cobrar isolamento social de quem mora em casas precárias, em favelas e bairros pobres, onde investimentos em saneamento básico, saúde, educação e transporte desde sempre foram negligenciados por governos?
Essa parcela substancial da população em nossas cidades e vilas merece atendimento prioritário no diagnóstico e cuidados emergenciais quando for confirmado o contágio pela Covid-19. Em paralelo ao aumento de leitos na rede hospitalar, há que se buscar soluções de isolamento social que é impossível em moradias com metragem e condições gerais precárias como as daquelas onde vive a maioria de nossa gente.
Ações de tratamento de quem contrai a doença precisam ser acompanhadas por aquelas necessárias para que diminua o contágio exponencial. O isolamento social radical que exige punição para quem o deixa de cumpri-lo é, no mínimo, irrealista diante das capacidades instaladas nos governos estadual e municipais.
Entre o oito - que caracteriza o nada fazer que vem prevalecendo há mais de mês nessas duas instâncias de poder -, e o oitenta - que seria o radical isolamento social, com poucas exceções de quem trabalha em serviços essenciais -, existem ações que podem resultar em efetiva diminuição no principal vetor de contágio: a circulação de pessoas.
Na Grande Vitória, essa diminuição pode ser buscada dificultando a circulação de veículos. Restringir o trânsito na Terceira Ponte e nas pontes de Camburi e Ayrton Senna somente a ambulâncias, veículos do aparato de segurança e ônibus pode ser um passo nesse sentido. A necessária diminuição na circulação de veículos também pode ser alcançada com a proibição de estacionar veículos privados em toda a orla de Vila Velha, Vitória e Serra.
Em todas as cidades deve ser exercida essa proibição de estacionar veículos privados de transporte individual em ruas e avenidas onde se concentra o comércio varejista. Shoppings têm que ser fechados.
Por um lado, essas são medidas pouco populares principalmente junto a grupos sociais com maior poder de contestação de qualquer medida de interesse público que atinja suas zonas de conforto. Por outro, essas são providências governamentais necessárias – ainda que longe de serem suficientes - para que o principal vetor de aumento da contaminação pelo vírus – a circulação e proximidade de pessoas – tenha alguma chance de diminuir.
Entre o interesse da maioria que é mais exposta ao contágio e também mais vulnerável uma vez contraído o vírus, e hábitos de poucos ligados ao consumo de bens e serviços menos relevantes à sobrevivência, o bom senso indica a governantes a prioridade do bem maior – a vida humana. Mal menor é a impopularidade momentânea junto a poucos; fardos mais pesados e mais prolongado serão o sofrimento e a morte de tantos.