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É professor titular aposentado de Economia da Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras

É tempo de semear um novo normal para a economia

É preciso que o governo estadual e as prefeituras ousem sair de suas zonas de conforto e passem a pensar e a agir para além dos modelos que já demonstravam fatiga antes da pandemia, e que agora se comprovam totalmente inadequados

Publicado em 16/07/2020 às 05h00
Atualizado em 16/07/2020 às 05h00
Pandemia de coronavírus: saúde e economia de mãos dadas
A pandemia de coronavírus fará com que governos abandonem velhos hábitos políticos, econômicos e sociais. Crédito: Divulgação

Acelerada pela pandemia da Covid-19, a crise da economia - que vem se aprofundando desde o colapso dos mercados financeiros em 2007/8 - pode ser uma boa oportunidade para se pensar e agir na direção de um novo normal. Abandonar ideias terraplanistas sobre como funciona a economia é um primeiro passo nessa direção.

O financismo defendido por quem, a despeito da falta de evidências que sustentem suas crenças no globalismo e na financeirização globalizada, continua apregoando a volta à normalidade. Normal para analistas que defendem a ideologia do mercado financeiro enquanto templo maior da economia é a exagerada concentração de renda que leva ao caos social e ao se apropriar dos recursos naturais como se eles fossem infinitos. Voltar ao normal para os apologistas de virtudes inquestionáveis do mercado financeiro é a acumulação de fortunas a partir, inclusive, de corridas armamentistas e, direta ou indiretamente, com ganhos no comércio de drogas ilícitas.

Os riscos à humanidade provocados pelo iminente colapso climático exigem que a crise da Covid-19 seja encarada como uma oportunidade para que formações socioeconômicas estabeleçam novas formas de se produzir, circular e distribuir bens, serviços e conhecimento. A busca de diversidade e pluralidade dessas formas deve refletir a experiência desastrosa com a ideologia veiculada pela mídia do mercado de que só só existe uma alternativa para o bom funcionamento da sociedade, seja econômica, social ou política.

A contestação da ideia de alternativa única que já se fazia presente antes da pandemia ganha a cada dia novos contornos e deliberações de governos – respaldados por movimentos sociais -, que entendem que o novo normal precisa passar ao largo da forma de produzir e distribuir riquezas que já levou o mundo ao caos social e ambiental. O argumento do "sempre foi assim" a cada dia é mais contestado pelo "daqui para frente precisa ser diferente".

São diversos, e com adesões crescentes, os movimentos no sentido do fazer diferente. Por um lado, já ganharam o mundo a proposta do Papa Francisco por uma economia intitulada de Clara e Francisco. Sem o respaldo institucional que ao papa é dado pela milenar Igreja Católica, espalha-se pelo mundo o movimento "Fridays for future", inspirado pelo ativismo da jovem Greta Thunberg.

Por outro lado, governos nacionais e locais em diversas partes do mundo avançam com o desenho e operacionalização de políticas econômicas menos centradas em ganhos financeiros de poucos. Propostas de desenvolvimento que buscam valorizar uma economia social e ambientalmente sustentáveis, para além do marquetismo das grandes corporações. Corporações que provocam esgarçamento do tecido social e destruição da biodiversidade onde atuam, direta e indiretamente, são as mesmas que se apresentam como se fossem "verdes" e no pleno exercício da solidariedade s.a..

A exemplo do que ocorre com o enfrentamento da pandemia, também no campo econômico o feito e permitido pelo governo brasileiro está no sentido inverso ao que está sendo praticado em outros países. Em muitos casos, a semente de superação dos efeitos perversos do coronavírus sobre a economia está sendo plantada, por um lado, através de investimentos que priorizem a manutenção de postos de trabalho em micro, pequenas e médias empresas. Por outro, gastos governamentais estão se concentrando em atividades portadoras de futuro.

No campo econômico, o futuro está em ampliar recursos para áreas onde são maiores as oportunidades de incorporação de progresso tecnológico. Esse pode se converter em trajetória de crescimento econômico e geração de novas oportunidades, seja em áreas novas – como a indústria 4G, seja em setores onde ainda é grande a exclusão de parcelas consideráveis da população.

Explorar oportunidades em fronteiras tecnológicas demanda política industrial robusta pensada e operacionalizada a partir de iniciativas de governos centrais. Difícil imaginar que o terraplanismo em vigor no governo federal considere qualquer ação que vá além da subordinação cega aos interesses estadunidenses. Por isso, de lá pouco se pode esperar.

Ainda assim, existe espaço para ações de governos estaduais e municipais voltadas para a inclusão social na educação e saúde; no saneamento, acesso à internet; na cultura, lazer, dentre outros segmentos da vida econômica e social. Ações que podem resultar em combate mais efetivo tanto aos danos humanos causados pela pandemia quanto a seus efeitos perversos na economia.

Para tanto é preciso que o governo estadual e as prefeituras ousem sair de suas zonas de conforto e passem a pensar e a agir para além dos modelos que já demonstravam fatiga antes da pandemia, e que agora se comprovam totalmente inadequados para sustentarem políticas públicas efetivas. Efetividade necessária para cuidar de vidas humanas e para buscar caminhos para um crescimento econômico centrado em humanos e no meio ambiente, ambos tão mal tratados nos últimos 50 anos.

A diversidade cultural e econômica da formação do Espírito Santo possibilita esse cuidar/buscar. Possibilidade que só se concretizará a partir da determinação política de governantes em nível do Estado e dos municípios.

Tomara que ela ganhe corpo o mais rapidamente possível. Os capixabas de maneira geral a merecem; os excluídos de sempre dela necessitam.

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