É falsa a ideia de que há um escolha entre saúde e economia. Se saúde está centrada no ser humano e seu ambiente, e economia sem o humano só existe nos cálculos de financistas que vivem da especulação com cifras, a questão básica é como colocar a economia para funcionar em benefício da maioria das pessoas.
No combate à pandemia da Covid-19, os países, Estados e localidades que melhor estão se saindo são os que entenderam rapidamente que as possibilidades de superação dos efeitos negativos da doença sobre a economia guardam relação direta com medidas adotadas para preservar a vida humana. A radicalidade de medidas de afastamento social e a agilidade com que foram implementadas são o que diferencia países com algum sucesso daqueles em que as perdas humanas e econômicas são e serão maiores por terem subestimado a pandemia.
O sucesso relativo de países grandes – como a China – e menores – como Portugal – quando comparado com a calamidade vivida nos Estados Unidos e no Reino Unido, por exemplo, deve-se em grande medida à forma como a sociedade estava organizada antes da pandemia e como a ela reagiu. Países em que o sistema público de saúde e seguridade social já funcionavam – ainda que parcialmente - segundo a lógica da necessidade humana, tiveram maior capacidade de enfrentamento do vírus.
O descuido de políticas pública para com necessidade humanas básicas – saúde, educação, habitação e Previdência Social - faz com que países ricos financeiramente e fortes militarmente – como os Estados Unidos e a Inglaterra - amarguem perdas humanas em escala inaceitável. Perdas maiores ainda porque – a exemplo da bizarra posição do governo brasileiro – se permitiram ao cinismo de desconsiderar as evidências da ciência e preferiram ser jocosos com a pandemia e suas devastadores consequências sociais. .
É importante entender que todxs perdem com a prevalência do financeiro sobre o econômico e o social. As perdas crescem de importância em momentos de ruptura como o que vive o mundo desde janeiro de 2020. É fundamental compreender que os interesses da saúde e da economia precisam se associar para se contraporem ao que desejam os donos do poder financeiro mundializado.
A questão maior a ser enfrentada é que os interesses da saúde e da economia que produz bens, serviços e conhecimento são difusos enquanto que os dos 1% no topo do patrimônio e da renda no mundo são muito bem articulados. A defesa das poucas organizações que controlam as finanças mundializadas é fácil. Eles já têm prepostos nos ministérios da Fazenda, nos bancos centrais e órgãos de fiscalização e controle mundo afora e Brasil adentro.
Complicado é fazer segmentos da economia que produz bens e serviços – principalmente aqueles compostos majoritariamente por micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) – entenderem que têm muito mais em comum com o que interessa ao bem-estar da população do que aquilo que os liga aos interesses da classe dominante.
Difícil porque, por um lado, os donos do poder financeiro têm seus interesses defendidos por crenças construídas pela academia que se coloca a favor dos interesses de poucos e da mídia que se sustenta e dá apoio à classe dominante. Por outro, porque a conexão entre proprietários de MPMEs no campo e na cidade e o interesse social do qual eles fazem parte raramente é explicitada no debate público.
Dificuldades que precisam ser superadas se o objetivo é mais do que superar a pandemia e a crise econômica. Superação da pandemia que precisa de ações articuladas e sistematizadas entre a cidadania que atua mais diretamente ligada aos interesses dos menos favorecidos, e aquela exercida no comando e gestão de empresas que produzem bens, serviços e conhecimento.
Superação da crise econômica que só vai ocorrer quando se entender que ela já estava aí quando a Covid-19 chegou e que suas raízes mais profundas estão na ganância perniciosa de poucos que lucram financeiramente sempre, inclusive nas crises.
A luz no final do túnel da pandemia e da crise econômica está longe do pensamento simplista que deseja a volta à "normalidade". A humanidade neste 2020 tem a singular oportunidade de agir na busca de algo novo em suas relações sociais – que contemplam por definição aquelas de cunho econômico. Busca do novo que precisa da humildade de escutar para muito além do ouvir.
Ir além do ouvir para que floresça a ideia de que na superação da pandemia são pouco efetivos os instrumentos utilizados em uma guerra. Para que a Covid-19 e seus efeitos negativos sobre a saúde e a economia sejam superados é fundamental a escuta de forças sociais, econômicas e políticas. Escuta com o objetivo de se construir o entendimento pela maioria da população de que o mundo centrado no interesses de poucos carece de futuro para a humanidade como um todo.