Consta da lenda do processo civilizatório grego-romano-judaico-cristão que os humanos são insaciáveis em suas necessidades. A cada degrau de ter – patrimônio, renda, bens, conhecimento - um outro patamar é desejado e buscado. É uma busca incessante para preencher, o que pode ser ilimitado.
Dada essa busca permanente por satisfazer necessidades crescentes e a impossibilidade de satisfazê-las, os seres humanos – segundo o mesmo processo civilizatório – têm que buscar a racionalidade em suas decisões econômicas. E o que é tido como racional é que as necessidades sejam priorizadas segundo as possibilidades financeiras de cada pessoa ou família. Se os cintos estão, por um lado, apertados, é socialmente considerado racional que até o mínimo necessário seja ajustado.
Com o cinto financeiro folgado, passa a ser racional e até louvável que o importante contemple compras ligadas às necessidades do ego. Comprar o que é mais caro passa a ser uma forma de se diferenciar no grupo social com quem mantem vínculos externos e a preencher buracos psicológicos internos.
Como toda boa lenda, os que creem nessa racionalidade econômica – alimentada por processos cumulativos e circulares de subjetividades individuais e inconsciente coletivo – se sentem com poderes crescentes na medida em que alcançam níveis mais altos de renda e de acumulação de patrimônio.
Empoderamento que sustenta e é sustentado por estruturas politicas, econômicas e culturais. Quanto mais renda e patrimônio, maior a capacidade de influenciar essas estruturas; quanto mais influência, maior a possibilidade de delas se beneficiar política, econômica e culturalmente. Benefício auferido na maioria das vezes à custa dos que menos têm renda e patrimônio.
Para legitimar esse benefício espúrio, aqueles que têm acesso à estrutura de poder buscam a ajuda de geradores de conhecimentos diversos na academia e difusores de informações nos meios de comunicação de massas. Dessa forma, se constrói castelos de areia a partir da conivência de muitos, alguns mais, outros menos visíveis e percebíveis para a maioria da população.
A oportunidade do jogo de faz de conta ser desnudado é quando vem uma onda mais forte do que aquela que os construtores do castelo de areia previram. O castelo se desmonta quando os poderes de comprar e influenciar da renda ou do patrimônio esbarram na impossibilidade de adquirir o que é fundamental.
Entender o que é fundamental pode ser penoso para todo um processo civilizatório, que de forma crescente colocou o interesse de alguns poucos acima do bem comum – entendido como a maioria da população e todos os demais seres vivente no planeta. Difícil para quem acredita nas forças de mercado como valor maior entender que em momentos como o que vive o mundo o eu e a família dependem para sua sobrevivência do outro, inclusive aquele que está lá em bairros, cidades, Estados, países, continentes distantes geograficamente.
Entender que para sua própria sobrevivência e de seus familiares é fundamental que todos sejam cuidados, independentemente de sua renda ou patrimônio; de que posição ocupa na estrutura de poder. A sobrevivência de cada um depende dos cuidados de pessoas, muitas delas tão descuidadas por um sistema perverso de exclusão social.
Cuidar dos que fazem parte das estatísticas da pandemia é fundamental. Cuidado que muitas vezes só depende de sermos mais humanos do que estivemos enquanto muitos valorizaram o viver a partir de lendas sobre necessidades e importâncias hoje entendidas como irrelevantes.