A manipulação de fatos e dados voltada para a sustentação de discursos que negam o relativo e o contraditório permeia boa parte do que hoje se produz para veiculação em redes sociais e parte da mídia de mercado. Manipulação possível através do uso de conhecimentos em diversas áreas do saber e veiculação viabilizada pelo uso intensivo de algoritmos e robôs.
As pós-verdades que daí resultam e por aí circulam têm obtido resultados positivos para apologistas do pensamento único, seja ele religioso ou político. Crescem os fiéis seguidores de fundamentalistas nas mais diversas denominações; pessoas despreparadas para o exercício de liderança política chegam ao comando de países.
Essas lideranças têm dado voz e vez ao desrespeito aos direitos humanos e à apologia de armas nucleares como instrumento de construção da paz mundial. Vociferam dogmas da teologia da prosperidade e transformam em culpados as vítimas do processo de crescente exclusão social – nativos, negros, mulheres, LGBTs, gente das periferias.
No Brasil, dogmas e transformação de vítimas em culpados alimentam pós-verdades voltadas para a desconstitucionalização de direitos conquistados. Foi assim com o teto de gastos em áreas essenciais como saúde, educação e seguridade social. Foi assim com o desmonte da legislação trabalhista. Está sendo assim na tentativa de aprovar uma reforma da Previdência que só interessa à especulação financeira.
A manipulação de dados e fatos se sucede e é contínua a recusa a dialogar com posições divergentes. A cada rodada, promessas se repetem da forma como a pós-verdade se estabelece – através das notícias mentirosas.
A garantia de crescimento agora no desespero de aprovação da reforma da Previdência é a mesma feita quando do estabelecimento do teto dos gastos e quando do desmonte da legislação trabalhista. A promessa de geração de emprego é outra cenoura que só existe no contorcionismo das fake news.
A estagnação econômica está à vista de quem quiser olhar e ver – empresas de menor porte fechando; e de quem quiser se sensibilizar com o drama social que deriva das crescentes taxas de desemprego e de trabalho precarizado. Em um Brasil nessas circunstâncias é de doer o cinismo com que autoridades, mídia e academia de mercado apresentam fatos e dados distorcidos.
Dor maior porque junto com as pós-verdades que assolam o país vem o desmonte de seus mecanismos de soberania e de inclusão social; e a destruição de sua diversidade cultural e ambiental.