O Brasil vive uma transformação demográfica acelerada. A expectativa de vida da população aumenta a cada ano, e, com ela, cresce também a incidência de doenças cardiovasculares associadas ao envelhecimento.
Esse cenário impõe novos desafios ao sistema de saúde e reforça a necessidade de políticas públicas capazes de garantir não apenas a prevenção, mas também o acesso a tratamentos modernos, seguros e eficazes. O assunto esteve em pauta nesta terça-feira (09), no Senado Federal, em Brasília.
As doenças cardiovasculares permanecem como a principal causa de morte no país. Entre os idosos, problemas como insuficiência cardíaca e doenças das válvulas do coração tornam-se cada vez mais frequentes, comprometendo a qualidade de vida, aumentando o número de internações e elevando os custos assistenciais.
Nesse contexto, a discussão promovida pela Comissão de Assuntos Sociais do Senado Federal, durante audiência pública sobre o Projeto de Lei nº 3.941/2025, que institui a Política Nacional de Prevenção e Controle das Doenças Cardiovasculares, representa uma oportunidade importante para refletirmos sobre os rumos da assistência cardiovascular no Brasil. Participei pessoalmente, enquanto presidente da Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista (SBHCI).
A medicina cardiovascular evoluiu significativamente nas últimas décadas. Hoje, diversas doenças que antes exigiam cirurgias de grande porte podem ser tratadas por meio de procedimentos minimamente invasivos, realizados por cateter.
Essas técnicas proporcionam recuperação mais rápida, menor tempo de internação e melhores resultados clínicos, especialmente em pacientes idosos e com maior risco cirúrgico.
Um exemplo emblemático é o tratamento da estenose da válvula aórtica, condição comum em pessoas idosas. A doença ocorre quando a válvula responsável pela saída do sangue do coração se torna rígida e estreitada, dificultando a circulação sanguínea. Em muitos casos, a substituição valvar por cateter já é considerada uma alternativa consolidada internacionalmente, respaldada por ampla evidência científica.
Entretanto, apesar dos avanços tecnológicos e científicos, o acesso a esses tratamentos ainda é limitado no Brasil. A diferença entre a necessidade da população e a oferta efetiva dos procedimentos revela um importante desafio de equidade em saúde.
Enquanto países desenvolvidos realizam esses tratamentos em larga escala, milhares de brasileiros continuam sem acesso às terapias que poderiam reduzir sintomas, melhorar a qualidade de vida e aumentar a sobrevida.
Essa realidade afeta principalmente pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que dependem integralmente das políticas públicas para obter assistência especializada.
A construção de uma política nacional voltada às doenças cardiovasculares deve considerar toda a jornada do paciente. Isso inclui ações de prevenção, diagnóstico precoce, acompanhamento adequado e incorporação de tratamentos comprovadamente eficazes.
A ciência tem produzido soluções capazes de transformar a vida de milhares de pessoas, mas é necessário que essas inovações cheguem efetivamente à população que delas necessita.
Além disso, é fundamental reduzir desigualdades regionais, ampliar a capacidade dos centros especializados e fortalecer o diálogo entre sociedades médicas, gestores públicos, órgãos reguladores e instituições de saúde.
A Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista (SBHCI) tem defendido esse debate com responsabilidade técnica e compromisso científico. O envelhecimento da população brasileira é uma realidade irreversível e, diante dela, o sistema de saúde precisa evoluir para oferecer respostas compatíveis com os desafios atuais.
Colocar o paciente no centro das decisões, com base em evidências científicas, planejamento e equidade, é um passo indispensável para que o Brasil avance na prevenção e no tratamento das doenças cardiovasculares, garantindo mais qualidade de vida e melhores perspectivas para sua população idosa.