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Coronavírus

Ninguém é capaz de enfrentar sozinho este vírus, todos devem se ajudar

O confinamento deve ser feito e respeitado. Mas, em situações adversas, como os pobres e miseráveis irão cumprir essa medida sem cair na depressão e na miséria, uma vez que não têm o suporte necessário?

Publicado em 24 de Março de 2020 às 05:00

Públicado em 

24 mar 2020 às 05:00
Paulo Brandão

Colunista

Paulo Brandão

Data: 17/03/2020 - ES - Vitória - Novo Coronavírus, Covid-19 - Ônibus lotado - Editoria: Cidades - Foto: Fernando Madeira - GZ
Ônibus lotado em plena pandemia de coronavírus Crédito: Fernando Madeira
O sociólogo Domenico de Masi, na obra o “Ócio Criativo”, defendeu que com as mudanças no mundo do trabalho, decorrentes da revolução tecnológica, muitas atividades passariam a ser feitas deslocadas do ambiente corporativo, como é o caso do home office. Realidade muito usual, para algumas categorias, em tempos de confinamento.
O ócio criativo, também conhecido como ócio produtivo, nada mais é do que uma nova maneira de definir o trabalho e aproveitar melhor o tempo. Segundo essa análise, significa priorizar e oferecer sentido a atividades relacionadas ao trabalho, que gera riquezas, ao estudo, que gera conhecimentos, e ao tempo livre, que gera bem-estar.
Essas mudanças, para ele, levariam as pessoas ao ócio, e assim sobraria mais tempo para realizarem atividades de trabalho e ao mesmo tempo conviver com os seus familiares. Numa versão positiva da análise, em condições de ser aproveitado, o ócio poderia se transformar em lazer, conhecimento e formas novas de interação e socialização; ao contrário, em condições adversas, poderia descambar em violência e miséria.
Numa “sociologia das ausências” não há como analisar o tecido social e a conjuntura de forma “rasa”, como se todas as pessoas já possuíssem emprego, casa digna, com banheiro, alimentação, vestuário e acesso a informação, ao conhecimento e as condições estruturais para pelo menos sobreviver.
O necessário confinamento, se cumprido à risca, é um imposição que poderá garantir a todos a sobrevivência em relação à infecção do vírus. É preciso ser feito e respeitado! Mas, em situações adversas, como os pobres e miseráveis irão cumprir essa medida sem cair na depressão e na miséria, uma vez que não têm o suporte necessário do poder publico e da sociedade onde vivem?
Esse vírus expõe um dos maiores problemas da nossa realidade brasileira e capixaba. Temos um elevado déficit habitacional, pessoas que vivem em condição de precariedade habitacional, oprimidas pelo ônus excessivo com aluguel e muitas estão desabrigadas e vivem ao relento.
Além disso, a falta de merenda das escolas condenará muitas crianças à fome ou à subnutrição. Os jovens que estudam na modalidade EAD paralisarão suas atividades, por falta de acesso ao computador, à internet e até à alimentação. Sem falar na falta de um local digno para conseguir ler, refletir, assimilar e transformar o conteúdo em conhecimento.
Muitas dessas famílias já tinham sua renda reduzida e viviam em uma triste realidade do sucateamento relações de trabalho e emprego, do congelamento dos investimentos na área de saúde e educação, dos cortes de aposentadoria e benefícios sociais. Um grande número desses que se tonaram microempreendedores hoje não podem estar na rua. Sem falar nos 12 milhões de desempregados, os 11 milhões de informais e os 104 milhões de brasileiros que vivem com R$ 413,00. O que significa para estes viver em quarentena?
Para eles, que são segregados por um modelo econômico perverso, a quarentena vai ser um martírio triste e depressivo. Se, além disso, a fome, a falta de água e as chuvas fortes baterem à porta, as famílias estarão numa encruzilhada terrível: morrer de fome ou correr o risco de pegar o vírus?
É preciso mais cooperação do que segregação. O filósofo estoico Sêneca disse “a adversidade é ocasião da virtude”. As crises fazem com que você demonstre quem é, o que prioriza e revela quem realmente está comprometido com a vida. O momento é para garantir apoio aos profissionais da saúde, investimentos maciços no setor público de saúde e garantia de renda mínima para as pessoas poderem sobreviver a crise.
O modelo de ganhar dinheiro sem levar em consideração o restante do mundo e das pessoas está fadado ao fracasso e não atende a situações como esta. É preciso uma cooperação global e uma união e sensibilidade local. A melhor defesa é a informação de fonte certa e verídica.
Para além das cores de bandeiras, somos a espécie humana e precisamos proteger todas as pessoas em todos os lugares e países. Para Harari é preciso garantir o estabelecimento de uma fronteira entre o humano e os vírus. Neste sentido, um corpo em qualquer lugar do mundo representa todos nós, os seres humanos. Não cabe o egoísmo piegas da “farinha pouca, meu pirão primeiro”.
Somos uma só civilização! Em momentos como este é possível perceber que não existem fronteiras entre os povos e nações. Cada um de nós, cada corpo é importante e deve ser protegido. Pois se um corpo de um ser humano em qualquer lugar do planeta for invadido por vírus, pode chegar até nós e  colocar em risco nossa própria vida. Toda espécie humana está em perigo. Ninguém é uma ilha! Ninguém pode enfrentar sozinho este vírus! Somos a espécie humana e estamos em risco. Por isso, todos devem se ajudar!

Paulo Brandão

É bacharel em Filosofia. Com um olhar sempre atento para as ruas, reflete sobre as perspectivas de cidadania diante dos problemas mais visíveis da Grande Vitória

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