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Renata Helena Paganoto Moura e Alexandre de Castro Coura

Artigo de Opinião

Convivência

Deixamos de frequentar nossas cidades muito antes do coronavírus

A falta crônica de integração social no cotidiano urbano dificulta, em situações de crise, até mesmo a conscientização dos indivíduos acerca da importância do isolamento sanitário
Renata Helena Paganoto Moura e Alexandre de Castro Coura

Publicado em 23 de Março de 2020 às 18:23

Publicado em 

23 mar 2020 às 18:23
Rua deserta
Rua deserta Crédito: Pixabay
O que as cidades têm a ver com uma pandemia como esta? Muito! A forma como nos relacionamos está diretamente ligada à cidade em que vivemos. Nós construímos a cidade, mas a cidade também nos constrói! É por isso que a Carta Mundial pelo Direito à Cidade reconhece que “o modo de vida urbano interfere diretamente sobre o modo em que estabelecemos vínculos com nossos semelhantes e com o território”.
No decorrer das últimas décadas, as cidades, antes espaços amplamente coletivos, de encontros, de trocas de mercadorias, de política, tornaram-se espaços segregados, onde tais “esferas públicas" têm sido restringidas e segmentadas.
As ruas e praças, antes locais de interação, esvaziaram-se. Tal transformação tem esvaziado também a ideia de coletivo e a capacidade de alteridade dos indivíduos, cada vez menos envolvidos com a discussão e gestão de problemas comuns.
Passamos a morar em condomínios fechados, que oferecem estrutura para que não seja necessário viver a cidade. Assim vamos criando feudos ao mesmo passo que feudalizamos a nossa maneira de viver.
As cidades vão se segregando e dividindo seus habitantes. Quem é rico mora aqui, quem é pobre mora lá. E, sem muros de concreto, vamos criando muros simbólicos!
Dessa forma, vamos deixando de frequentar as cidades. E, assim, as cidades deixam de ser o local de encontro com o outro, com esse estranho. Não conheço meu vizinho, não cumprimento mais quem cruza o meu caminho, quem me olha do outro lado me assusta!
Eu conheço quem frequenta o meu condomínio, a minha escola, a minha igreja, o meu trabalho, o meu clube; não ocupamos mais o espaço público, ocupamos bares, restaurantes: a cidade se reduz a esses espaços privados!
Nesse contexto, a gestão de problemas globais, que dependem do comprometimento individual a partir de uma ética da alteridade, especialmente para com o vulnerável, se torna mais difícil.
Se o outro é um estranho, invisível, solidarizar-se com ele é mais difícil. E por que ficaria recluso em casa para não contaminá-lo? Por que fazer isso se não sou grupo de risco? Se estou assintomático? Por que vou deixar de ir à praia, aos bares, aos restaurantes, aos shoppings? Por que devo me preocupar com ele?
Paradoxalmente, a falta crônica de integração social no cotidiano das cidades dificulta, em situações de crise, até mesmo a conscientização dos indivíduos acerca da importância do isolamento sanitário, quando necessário por motivo de saúde pública.
Cidades devem nos proporcionar este senso de solidariedade, pois as cidades não são os prédios, as ruas, as avenidas, as cidades são seus moradores e visitantes, que dividem este solo dentro deste espaço terrestre. As cidades são as pessoas! Mas para que nos reconheçamos como um grupo é preciso que nos identifiquemos dentro dessa cidade, pois só uma cidade livre, aberta, sem muros e solidária construirá relações que nos permitirão enfrentar coletivamente essas adversidades.
A autoria é professora da FDV e integrante do BR/Cidades. O autor é professor do programa de Doutorado em Direito da FDV
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