Para além das consequências mais violentas, cujo destaque maior, sem dúvida, diz respeito a vidas humanas, além do estrago na economia, a Covid-19 tem se prestado a revelar ao mundo o seu poder de mostrar um vasto contingente populacional até então invisível. Estamos falando de uma verdadeira massa humana que, de alguma forma, sobrevivia incógnita. Ironicamente, tornados visíveis pela invisibilidade do próprio vírus.
Mesmo em países ricos, caso emblemático dos Estados Unidos, onde sempre se cultuou e ainda se apregoa o princípio da igualdade, o que o fenômeno do vírus vem nos revelando é a intensificação das desigualdades econômicas e sociais. No Brasil, não seria diferente. Até com mais intensidade, o fosso das disparidades econômicas e sociais simplesmente foi escancarado, mesmo que já historicamente e sobejamente sabido e registrado. A pobreza extrema, fruto das desigualdades, está sendo desnudada.
Temos aí um passivo, portanto; um legado que deverá levar o mundo a uma reflexão sobre caminhos novos a serem traçados e trilhados no pós-crise da Covid-19. Esse verdadeiro “desnudamento” proporcionado pelo vírus, espera-se e deseja-se, possa servir para motivar e orientar reposicionamentos e redirecionamentos de políticas internas a cada país, e também na remodelagem das relações entre estes. Abre-se a perspectiva de uma nova ordem mundial.
Recorro aqui a uma reflexão que nos trás o filósofo John Rauls, que foi professor de Filosofia na Universidade de Harward por muitos anos, tendo falecido em 2002. No seu livro "Teoria da Justiça" ele defende a tese de que a justiça, que é o que supostamente todos almejamos, até pode admitir a desigualdade, porém, desde que esta recuse o sacrifício dos mais desfavorecidos.
Na verdade, o que Rauls propõe é uma combinação de dois princípios: o princípio da igualdade com o princípio da diferença. Ou seja, uma justiça associada ao mérito. Pela igualdade, todas as condições de vida, por direito, são acessíveis a todos. Já pelo lado da diferença, que “todas as desigualdades só sejam aceitáveis se resultarem em proveito dos mais desfavorecidos”.
Nesse aspecto, o mundo precisa ir além de reflexões. Elas são importantes e fazem parte do processo de se avançar. É preciso, no entanto, que estas sejam transportadas para a realidade por meio de políticas e ações concretas. E isso se faz necessariamente no coletivo. Mas para isso, liderança é fator decisivo.