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Depois da pandemia

Destruição necessária para o surgimento do novo

A destruição só será criadora se houver disposição para se livrar do desejo de retorno à "normalidade" que só interessa a alguns poucos

Publicado em 23 de Abril de 2020 às 05:00

Públicado em 

23 abr 2020 às 05:00
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

Coronavírus (covid-19)
O planeta sob o coronavírus (covid-19) Crédito: Freepik
As oportunidades que podem emergir de um período de crise dependem da capacidade da sociedade de se desapegar do velho e deixar emergir o novo. A ciência pode entrar em crise pela incapacidade do saber estabelecido de responder a questões novas; a economia entra em crise quando deixa de ser capaz de apresentar resultados nos moldes a que a ideologia dominante deseja; as instituições entram em crise quando perdem a capacidade de gerar consensos entre os seus diversos segmentos.
O grande entrave para o progressos da ciência, a busca de novos rumos para a economia e a construção de novas instituições é a TINA (‘there is no alternative’, ou só existe uma solução). O olhar científico que permanece fiel aos instrumentos disponíveis e às formas de tratar seus objetos, se torna dogma. Desconsiderar alternativas econômicas que pensam as questões da produção, circulação e distribuição de bens, serviços e conhecimento, para além do que dita a financeirização mundializada é empobrecer o debate e pode resultar no aprofundamento da crise.
Aceitar que as instituições – sejam elas normas sociais explícitas ou implícitas – padecem do mal de Gabriela – "eu nasci assim…" – só favorece os poucos que as manipulam em seu benefício.
Olhar para a crise com o desejo de retornar à normalidade resulta no seu aprofundamento e transferência de seus ônus para gerações futura. Foi assim com a chamada crise do petróleo dos anos 1970; foi assim com as crises financeiras de países emergentes nos anos 1980; foi assim com o colapso do sistema financeiro global em 2007/08 tendo como epicentro as chamadas economias maduras do Ocidente.
A superação da crise do petróleo foi pela lado mais fácil – aumento da oferta que acelerou a crise climática. As soluções para as crises financeiras tanto de países emergentes quanto dos chamados desenvolvidos – privatização e desnacionalização de patrimônio social e socialização dos prejuízos, só ampliaram as bolhas especulativas. A insustentabilidade dessas soluções já estavam claras para quem quisesse ver antes mesmo do surgimento da pandemia da Covid-19.
A construção do discurso de "volta à normalidade" feito pela mídia que defende o que determina a financeirização mundializada, e sustentado com argumentos técnicos construídos por encomenda dos poderes econômicos estabelecidos, é hoje o maior desafio para a superação da crise sanitária, econômica e ética pela qual passa a humanidade.
A normalidade defendida pelos poucos que ganham muito sempre – principalmente nas crises por eles mesmos engendradas – significa voltar a desconsiderar as necessidades básicas – alimentação, saúde, educação, habitação, saneamento básico – à maioria das pessoas no mundo, no Brasil, no Espírito Santo, em cada município capixaba.
As soluções por cima – do tipo "crescer o bolo para depois dividi-lo" – aplicadas no passado já demonstraram seus erros, equívocos e incapacidade de distribuir com equidade os resultados do progresso econômico. O discurso da sustentabilidade via mitigação dos efeitos perversos do crescimento baseado no fazer o mesmo de forma ampliada já se comprovou peça de marquetismo barato dos grandes grupos em escala mundial.
Sejam eles puxados por atividades extrativas com grande impacto na crise climática – dos combustíveis fósseis à extração de minérios. Sejam eles empurrados pelo agronegócio e outros exploradores de recursos naturais não renováveis – águas, florestas, terra. Sejam eles ainda os que perpetuam a indústria da doença, com alimentos processados nada saudáveis que levam à necessidade de remédios e tratamentos cada vez mais sofisticados e inacessíveis à maioria da população.
As soluções por cima que continuam sendo desenhadas – garantias governamentais à sobrevivência de um sistema financeiro que atende aos interesses de poucos; apoiar com recursos públicos atividades que só aprofundam a crise climática, como a indústria do petróleo e suas derivadas como a automobilística e a aviação comercial – são pobres e só interessam a poucos. Delas só se pode esperar o aprofundamento do colapso climático e o empobrecimento ainda maior da grande maioria do população do mundo, do Brasil, do Espírito Santo e de seus municípios.
O olhar atendo para disponibilidades tecnológicas viáveis economicamente pode indicar novos rumos para a sociedade. Rumos para a saúde, para a economia, e que dependem da disposição de se pensar simples e agir de forma solidária. Humildade para reconhecer os equívocos da TINA e buscar em saberes que estão disponíveis pela ciência e pela sabedoria de povos originários pode ser um bom começo.
Simples assim, mas longe de ser fácil. A destruição só será criadora se houver disposição para se livrar do desejo de retorno à "normalidade" que só interessa a alguns poucos.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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