Uma antiga oração Hindu diz que “possa a fé suplantar o que a razão não alcança”. Parcela significativa dos brasileiros resolveu por preencher com a fé e os sentimentos (ódios e paixões) o espaço dedicado à razão e vice-versa. Provavelmente, parte da culpa pela falta de popularidade que a ciência tem no Brasil vem da péssima comunicação dos cientistas com os, assim chamados, leigos.
A outra parte vem da nossa péssima formação em informações gráficas e interpretação de números. Nos testes internacionais, estamos entre os países com pior desempenho em matemática e ciências. A lógica do método científico é incompreensível para o brasileiro médio e a imagem de um gráfico, se não for em formato de pizza, é algo meio “exotérico”.
Eis uma das grandes razões do nosso atraso e do abismo de desigualdade que produzimos até aqui. Não conseguimos interpretar análises mais sofisticadas nem ler trabalhos acadêmicos e acabamos à mercê dos “cientistas” de WhatsApp. E é aí que entra o relevantíssimo papel da mídia tradicional: servir, efetivamente, como interprete (meio) dos intrincados modelos matemáticos para uma linguagem acessível, sem desconfigurar a precisão do estudo; reduzir a distância entre o leigo e a ciência permitindo uma interlocução saudável para ambos.
É sintomático que no meio de uma crise gigantesca não consigamos ter como bússola a ciência! Alvin Toffler escreveu que existem pelo menos seis critérios pelos quais a maioria de nós decide se alguma coisa é “verdadeira”. Então, na nossa sociedade prevalecem seis filtros de verdade: Consenso, Consistência, Autoridade, Revelação, Durabilidade e Ciência.
Muito do que consideramos verdade vem da sabedoria “convencional”, ou seja, se todo mundo acredita... deve ser verdade. Isto é Consenso; A Consistência pressupõe que se um fato se encaixa em outros fatos considerados verdadeiros, então ele deve ser verdadeiro também; A Autoridade norteia grande parte das nossas decisões. Temos a tendência de acreditar no que dizem grandes líderes religiosos, políticos carismáticos, empresários de sucesso, jornais tradicionais, ou em pessoas de destaque nas suas respectivas áreas do conhecimento.
A Revelação é “mística” e não pode ser questionada. Simplesmente é verdadeiro e ponto final; A Durabilidade “seleciona” verdades que resistiram ao tempo e, portanto, merecem credibilidade.
A Ciência teria o grande diferencial quando comparada com todos os outros “filtros” pois pressupõe rigorosos testes até a conclusão. Com certo pesar, conclui Toffler que, mesmo assim, de todos os critérios, ela é a menos utilizada no nosso dia a dia.
Prestássemos nós mais atenção à ciência, certamente conseguiríamos sair desse triste Fla-Flu que se transformou a discussão no Brasil. Pois “a ciência não é uma ilusão, mas seria uma ilusão acreditar que poderemos encontrar noutro lugar o que ela não nos pode dar.” Isto é Freud quem explica!