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Advogado especialista em Direito Empresarial, professor universitário, doutor em Direito e mestre em Educação e Comunicação

Sou preconceituoso como o ministro. Permita-me sugerir uma resposta melhor

Qualquer escorregão na linguagem, na nomenclatura ou nos conceitos, pode produzir execração pública, discursos inflamados e desastrados pedidos de desculpas

Publicado em 20/02/2020 às 05h00
Atualizado em 20/02/2020 às 05h02
Ministro Paulo Guedes. Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasi
Ministro Paulo Guedes. Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasi

Estou entre os “fãs” do ministro Paulo Guedes. Do meu ponto de vista, ele tem sólida formação acadêmica, experiência no mercado e grande interesse (por vaidade ou altruísmo – pouco importa) no desenvolvimento do Brasil. Porém, o país que temos hoje não é mais o do politicamente correto, agora tem que ser politicamente “perfeito”.

Qualquer escorregão na linguagem, na nomenclatura ou nos conceitos, pode produzir execração pública, discursos inflamados e desastrados pedidos de desculpas. O ministro Guedes é um excelente comunicador, sobretudo quando fala para a parcela de maior escolaridade e melhor condição financeira (pensei muito antes de escrever essas palavras – sabe-se lá...).

Nos últimos dias, tenho visto sucessivos pedidos de desculpas e as tão famosas justificativas de que “a fala foi tirada de contexto”, a “imprensa tem má vontade com o governo” e etc... Na qualidade de admirador e apoiador de V. Exa. ministro, sinto-me autorizado a lhe fazer uma sugestão: Pare de dizer que as suas frases foram tiradas de contexto e que V. Exa. não disse o que, de fato, disse. Isto só atrapalha a sua curva de aprendizado sobre os problemas do Brasil, que são muitos, e, para ser justo, V.Exa. está ajudando a resolver.

Aceite que cometeu um erro grave de avaliação e de linguagem. Assuma que tem preconceito/uma certa demofobia e prometa que vai melhorar. Nisso eu acredito! Deixe-me demonstrar ainda mais a minha solidariedade (não concordância) com V. Exa., ministro. Vou fazer uma confissão embaraçosa que talvez desperte empatia.

Sou nordestino, descendente direto de escravos, criado em um ambiente plural por uma família (um médico e uma professora) desprovida de preconceitos de gênero, raça, classe social e etc... Sempre me considerei um cidadão distante dos prejulgamentos, entusiasta da diversidade e do pensamento livre sobre pessoas e suas circunstâncias, até que: Depois de alguns dias em Londres, retornei cansado para o hotel e quando abri a porta do quarto deparei-me com uma “modelo” de olhos azuis.

Imediatamente fechei a porta e retornei para a recepção com a “queixa” de que havia “uma pessoa estranha” no meu quarto. O recepcionista conferiu a chave de cartão e interfonou para o quarto. Seguiram-se a informação e o constrangimento: Era a camareira (room maid)! Desculpei-me no front desk, e, extremamente embaraçado, retornei para o quarto decidido a aprender alguma coisa com aquele episódio.

Conversei rapidamente com a moça e fiquei sabendo que ela era da República Tcheca – que naquela época atravessava grave crise de desemprego para os jovens – e estava em Londres em busca de “melhores condições”. Ela saiu e eu não coloquei o assunto na conta do “mal-entendido” ministro. Não foi um mal-entendido! Simplesmente, aquela moça não se encaixava no “meu” estereótipo de camareira.

Assim como é estranho para V. Exa. que domésticas possam viajar para a Disney. Nós (Eu e V. Exa.) não conhecemos a pobreza ministro; quando falamos sobre o assunto, temos um sotaque carregado. Entretanto, temos algo a nosso favor, além da boa intenção: Esse país já foi governado por pessoas que sabiam falar de pobreza sem sotaque, e, o resultado já conhecemos.

Então, ministro, da próxima vez (haverá) que for confrontado com mais uma declaração “preconceituosa” responda simplesmente: Perdão; tenham paciência comigo; preciso de tempo; vou melhorar o país; sei como fazer isso; mas sempre estranharei ao me deparar com camareiras de 1,80m e olhos azuis, assim como, para mim, domésticas em aeroportos internacionais só não serão “estranhas” se estiverem de posse do seu distintivo (uniforme branco)!

Isto não fará de V. Exa. uma pessoa ruim, apenas, sincera e autocrítica. Voltaire alertou que “um preconceito é uma opinião que deixou de ser submetida à razão”. O que acha ministro?!

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