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Advogado especialista em Direito Empresarial, professor universitário, doutor em Direito e mestre em Educação e Comunicação

Hospital construído em 10 dias deveria curar nosso Coronavírus da ineficiência

Meus Deus, moramos no mesmo planeta, temos acesso às mesmas informações, as leis da natureza funcionam lá como cá. O que é que há conosco? Construir por aqui é quase um trabalho de Hércules. Ineficiência gera corrupção

Publicado em 30/01/2020 às 04h01
Atualizado em 30/01/2020 às 13h00
Canteiro de obras de um hospital que será construído na China. Crédito: Divulgação
Canteiro de obras de um hospital que será construído na China. Crédito: Divulgação

Há notícia (e fotos) de que a China está construindo um hospital na cidade de Wuhan para abrigar mil leitos e que, tal construção, será feita em assombrosos dez dias (falta conferir). Até a confirmação, vamos considerar, para efeito deste artigo, sem que mudem quaisquer das conclusões, que a obra durará dez semanas. Para nós, pouco importa. O espanto é do mesmo tamanho!

O hospital vai servir para abrigar doentes por infecção de um patógeno que seria um “novo” coronavírus; ou seja, o caso é de urgência mesmo. Certamente, não haverá discussões judicias sobre desapropriação de terreno, licitações intermináveis, sucessivos órgãos de controle, infinitas licenças ambientais e sanitárias, estudos de impacto de vizinhança e etc...

Ou, se houver tudo isso, será feito nos dez dias (ou dez semanas). É possível imaginar o grau de sofisticação no planejamento, gestão e execução de um projeto assim. Engenheiros e máquinas de alto nível, trabalhando afinados e coordenados na empreitada. Mas e a mão de obra? É também, segundo estudos, de enorme eficiência e elevado índice de produtividade.

Aí entra o tal do senso comum (que eu não gosto, mas utilizo): Meus Deus, moramos no mesmo planeta, temos acesso às mesmas informações, as leis da natureza funcionam lá como cá. O que é que há conosco? Qualquer um que já tenha reformado um simples banheiro na própria casa vai entender o que estou dizendo.

Construir por aqui é quase um trabalho de Hércules. Quando o problema não está na qualidade nem no custo, está no excesso de prazo. O mais triste é que conhecemos todos os sintomas, mas insistimos em não enxergar as causas. Perguntado, o brasileiro médio responderá: o problema do Brasil é a corrupção.

Pois é, estudos e rankings internacionais mostram paridade entre os índices de corrupção de Brasil e China. E agora? Não sendo isto, o que seria? É preciso, com urgência, compreendermos que nos falta eficiência, formação, planejamento e que os custos da incompetência são muito mais elevados do que os custos da corrupção.

Até porque ineficiência gera corrupção. Não o contrário. Fizemos um pacto de salvo conduto para “os bem-intencionados”. Eles estão livres de qualquer punição. Aqui proliferam frases como: não foi por maldade; Ele é meio limitado, mas é uma pessoa muito séria; A intenção foi boa. Enquanto isto, travamos uma luta vã, imaginária e cômoda contra os tais “corruptos”. Que não acabam nunca. Vão sendo presos, execrados publicamente e continuam a se multiplicar.

Escrevi aqui no dia 3 de novembro de 2019... Corruptos não morrem por prisão ou execração pública. Morrem por asfixia causada por transparência, fluidez, confiança e desregulamentação inteligente. A luta cega contra um tipo de corrupção, aflorou entre nós injustificável leniência com dois dos mais perversos destruidores do tecido social produtivo: a ineficiência e a incompetência, cujos percentuais de perdas ultrapassam, em muito, os usuais e lamentáveis 5% a 10% de propina.

Foi assim, com esse pega ladrão tropicalizado que saímos do execrável “rouba mas faz” para o igualmente pernicioso “se não rouba, tudo o mais lhe será perdoado”. O grande professor Roberto Campos, detentor de inteligência incomum, cunhou as seguintes frases: “O mundo não será salvo pelos caridosos, mas pelos eficientes” - “Deus nos livre dos bem-intencionados, eles causam danos irreparáveis”. Disse ainda, o professor, que “a burrice no Brasil tem um passado glorioso e um futuro promissor”. Com essa eu não concordo. Mas é uma bela provocação!

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