Somos campeões do “deixa que eu chuto”. Quem nunca ouviu esta frase nas peladas de rua e nos campeonatos menos graduados?! É uma atitude que se espraiou para além do futebol, atingiu todas as atividades por aqui e, praticamente, já faz parte da identidade nacional.
A definição formal de voluntarismo é “qualquer sistema metafísico ou psicológico que atribua à vontade um papel mais predominante do que o atribuído ao intelecto". Então, traduzindo, o fenômeno seria um “excesso de vontade combinado com falta de consistência”. Algo meio irresponsável que frequentemente se atribui à nossa latinidade.
Estamos inundados da ideia de que para resolver todos os problemas nacionais falta apenas “vontade” política (como se fosse pouco). Passa até a impressão de que estamos cercados de platitudes e problemas triviais. Isto é de uma inocência assombrosa! Para resolver problemas - de qualquer natureza, sobretudo os graves – são necessários planos, projetos e execução de qualidade (implícitos estão os recursos humanos e financeiros). É preciso que haja preparo, competência, destreza, expertise, técnica e diversos outros atributos mais subjetivos, dentre eles a “vontade”.
Por isso, sempre tenho uma certa compaixão quando vejo um jovem bacharel em Direito recebendo a carteira da OAB e dizendo “eu sou advogado”. Ele não tem a mínima ideia do abismo que separa uma carteira da OAB de “ser” um advogado; um CRM de “ser” um médico; uma colher de pedreiro de “ser” um pedreiro e uma maioria nas urnas de “ser” um gestor público.
Enquanto não abandonarmos esse ufanismo bobo que temos cultivado, ao acreditar que a mera disposição de uma criatura “bem-intencionada” possa produzir, espontaneamente, os resultados desejados, não haverá solução para nós. Os nossos problemas não são meramente conjunturais e não nasceram há 16 anos, são estruturais, com raízes profundas e merecem trato profissional.
Vejamos o que ocorreu na Argentina quando se acreditava que a questão lá era “simples” e bastava trocar o sinal (para a direita) do governo. Henry Mencken já disse que “para todo problema complexo existe sempre uma solução simples, elegante e completamente equivocada”.
"Enquanto não abandonarmos esse ufanismo bobo que temos cultivado, ao acreditar que a mera disposição de uma criatura “bem-intencionada” possa produzir, espontaneamente, os resultados desejados, não haverá solução para nós"
Portanto, dá próxima vez que ouvir alguém dizer “xá comigo” ou “deixa que eu chuto”, certifique-se de que esse alguém tenha a competência do Romário na final da copa de 1994. Só teremos chance quando pararmos de “requerer” soluções mágicas, rápidas e messiânicas.
O economista norte-americano Thomas Sowell advertiu que “o fato de que muitos políticos de sucesso são mentirosos não é exclusivamente reflexo da classe política. É também um reflexo do eleitorado. Quando as pessoas querem o impossível, somente os mentirosos podem satisfazê-las.” E, em geral, os mentirosos são altamente voluntaristas.