O Brasil é um país de contrastes, e não apenas culturais ou sociais. Também na economia, cada estado se conecta de forma diferente ao restante do país. Foi isso que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) mostrou no Estudo Especial nº 73, publicado em maio: um retrato das dependências produtivas estaduais, revelando quem precisa de quem para produzir.
A metodologia parte das Tabelas de Recursos e Usos (TRU) e das Contas Regionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aplicando técnicas de regionalização. O resultado é um retrato detalhado das 27 unidades federativas em 12 setores econômicos, com foco no ano de 2023.
A análise distingue o consumo intermediário interno daquele proveniente de outros estados, revelando o quanto cada economia estadual se sustenta em insumos locais ou depende de cadeias externas de outros estados.
Os números impressionam pela disparidade. Enquanto São Paulo apresenta a menor dependência – apenas 17,5% de seus insumos nacionais vêm de fora – o Acre possui a maior dependência e chega a 78,3%.
O Espírito Santo, por sua vez, aparece com 53,8% de seus insumos nacionais oriundos de outros estados, um patamar elevado e próximo ao do Rio de Janeiro (52,1%). Isso significa que mais da metade da base produtiva capixaba depende de fornecedores externos, sobretudo dos vizinhos Minas Gerais e São Paulo, que concentram indústrias de base e cadeias de insumos.
A explicação está na estrutura econômica local: portos estratégicos e indústria extrativa de peso, mas pouca oferta de indústrias de base capazes de fornecer insumos internamente.
O que fazer diante desse diagnóstico? O estudo do BNDES sugere que políticas de desenvolvimento regional devem considerar não apenas o estímulo direto à produção, mas também os efeitos de encadeamento.
No caso do Espírito Santo, a elevada dependência externa pode ser transformada em oportunidade: ao atrair investimentos voltados para indústrias de base e fornecedores locais, o Estado pode adensar suas cadeias produtivas, reduzir vulnerabilidades e ampliar os efeitos multiplicadores internos.
Incentivos fiscais e financeiros locais (válidos até 2032) e programas de inovação voltados para setores estratégicos – como, por exemplo, metalurgia, química, máquinas e equipamentos, e bens intermediários – poderiam criar um ecossistema mais autônomo, capaz de sustentar a expansão de setores já consolidados, como o portuário e o extrativo.
Em outras palavras, o Espírito Santo precisa olhar para dentro. Se hoje mais da metade de seus insumos vêm de fora, há espaço para políticas que fortaleçam a produção local e criem novas conexões regionais.
O estudo do BNDES não é apenas um diagnóstico; é um convite para que o Estado desenhe estratégias de desenvolvimento que transformem dependência em dinamismo, e que façam do Espírito Santo não apenas um elo de passagem, mas um polo de geração de insumos e inovação.