O Brasil tem uma predileção por transformar debates econômicos em duelos ideológicos. Em 2026, já se fala em Keynes contra Hayek, como se a macroeconomia fosse um ringue de ideias importadas. É uma narrativa sedutora, mas também simplista. O país não cabe nesse binarismo.
A realidade é mais dura. Crescemos abaixo da média mundial há anos, e ficamos para trás em relação a emergentes como China e Índia. O PIB per capita brasileiro, que já foi promessa de ascensão, hoje se arrasta abaixo da média global. Essa é a verdadeira questão que deveria pautar a agenda macroeconômica: como aumentar o valor adicionado e a produtividade e devolver dinamismo à economia.
A Selic elevada é sintoma de um problema estrutural. Não se trata apenas de inflação, mas de baixa poupança interna, insegurança jurídica e desconfiança fiscal. Reduzir os juros de forma sustentável exige reformas institucionais, estabilidade regulatória e credibilidade nas contas públicas. Sem isso, o custo do dinheiro continuará sufocando investimentos.
O orçamento federal é outro nó. Engessado por despesas obrigatórias, sobra pouco espaço para infraestrutura — estradas, portos, energia, saneamento. Sem infraestrutura, não há produtividade. O dilema não é gastar mais, mas gastar melhor. Reorganizar o orçamento para abrir espaço a projetos estratégicos, sem romper a responsabilidade fiscal, é tarefa urgente.
Mas há um ingrediente que falta nesse debate: estratégia. O Brasil fez muitas reformas nas últimas décadas — previdenciária, trabalhista, tributária em partes — mas não definiu qual é o seu projeto de crescimento. Quer ser uma potência agrícola? Um polo industrial verde? Um hub de tecnologia e inovação? Sem clareza de rumo, as reformas viram peças soltas de um quebra-cabeça sem desenho.
Eficiência do gasto público, educação de qualidade, inovação tecnológica e infraestrutura moderna são pilares. Mas eles precisam estar amarrados a uma visão de país. A China tem sua estratégia de industrialização e inovação. A Índia aposta em serviços e tecnologia. O Brasil precisa decidir qual é o seu caminho. Sem isso, continuaremos patinando, mesmo com boas reformas.
O Brasil de 2027 a 2030 será definido não por dogmas importados, mas pela capacidade de enfrentar problemas reais: juros altos, orçamento engessado, gasto público ineficiente, produção de bens e serviços de baixa complexidade econômica e produtividade baixa.
Keynes e Hayek podem inspirar, mas não resolvem. O país precisa de pragmatismo, de soluções híbridas, de criatividade institucional e, sobretudo, de convergência política em torno de um projeto de nação. Precisa de menos Fla-Flu ideológico e mais estratégia econômica.
Em vez de importar rótulos, talvez seja hora de escrever uma narrativa própria: a de um Brasil que encara seus próprios desafios e constrói uma agenda macroeconômica sob medida. Nem austríaca, nem keynesiana. Brasileira — e, sobretudo, estratégica.