Há livros que envelhecem mal, presos ao tempo em que foram escritos. Outros, como "A Riqueza das Nações", de Adam Smith, parecem ganhar fôlego a cada século. Publicado em 1776, o tratado que inaugurou a economia política completa 250 anos em 2026. E, curiosamente, continua a nos dizer muito — inclusive sobre os dilemas de desenvolvimento do Espírito Santo.
Smith escrevia em meio ao debate entre fisiocratas, que viam na agricultura a única fonte de riqueza, e mercantilistas, que acreditavam que o poder de uma nação estava em cofres cheios de ouro e em barreiras comerciais. Contra ambos, ele mostrou que a verdadeira prosperidade nasce da divisão do trabalho, da produtividade e da liberdade de comércio. Não é o estoque de metais preciosos que faz uma sociedade avançar, mas a capacidade de organizar o trabalho humano em cadeias cada vez mais eficientes.
A famosa imagem da fábrica de alfinetes, em que a especialização multiplica a produção, continua atual. Hoje, em vez de alfinetes, falamos de semicondutores, biotecnologia ou logística portuária. O princípio, porém, é o mesmo: quanto mais complexa e integrada a divisão do trabalho, maior a riqueza coletiva.
E aqui entramos no Espírito Santo. O plano “ES 500 anos” nos lembra dos desafios que o Estado enfrenta: a dependência de commodities como minério e celulose, a necessidade de melhorar a infraestrutura logística, a desigualdade social e regional, a urgência de investir em educação técnica e científica, e o imperativo de conciliar crescimento com sustentabilidade ambiental.
Smith nos oferece pistas. A divisão do trabalho sugere que não basta exportar matéria-prima: é preciso agregar valor, diversificar a produção, criar cadeias industriais mais sofisticadas. O comércio exterior, que ele defendia como motor da prosperidade, encontra eco na vocação portuária capixaba — mas exige investimentos em transporte interno e integração regional para que o estado se torne um verdadeiro hub logístico.
A educação, que Smith via como parte da prudência necessária ao progresso, é chave para formar trabalhadores capazes de atuar em setores de maior produtividade. E suas reflexões sobre a “tragédia dos comuns” nos lembram que o crescimento não pode vir à custa da destruição ambiental: o Espírito Santo precisa de políticas que conciliem desenvolvimento e preservação.
Celebrar os 250 anos de "A Riqueza das Nações" é, portanto, mais do que reverenciar um clássico. É reconhecer que as ideias de Adam Smith continuam a iluminar caminhos práticos para o Espírito Santo: diversificar a economia, aproveitar melhor sua posição estratégica, reduzir desigualdades e enfrentar os desafios ambientais.
Ler Smith hoje é como ouvir um velho mestre que, de algum modo, ainda conversa conosco — e nos ajuda a imaginar um futuro mais produtivo, justo e sustentável.