A menos de cinco meses do dia de votar, em 4 de outubro, ainda são altas as indecisões de votos. No Espírito Santo são 86% de indecisos. No Brasil são 62%. Segundo pesquisas da Quaest. É sempre assim mesmo. O eleitor demora a entrar no clima.
A julgar pelas pesquisas, o que mudou foi o aumento da rejeição aos políticos e à política. Que prenuncia possibilidade de não comparecimento para votar ou de anulação de voto ou de voto em branco.
E também aponta para um forte cansaço com a recorrente polarização política “fabricada” pela disputa entre o bolsonarismo e lulopetismo. Esse cansaço será fator decisivo de razão de voto em 4 de outubro. Como voto? Voto antibolsonarismo? Voto antipetismo? Voto “nem-nem” e escolho outro candidato? Ou não voto?
Neste contexto já observado, duas análises circularam nas mídias nesses últimos dias e merecem atenção. Primeiro, a análise de Paulo Baia sobre o atual poder eleitoral dos idosos no Brasil. Segundo, a análise de Otoni de Paula sobre a “confusão” que alguns fazem em torno da natureza do conservadorismo.
Paulo Baia mostra que o país envelheceu e o eleitorado envelheceu. Baseado em pesquisa da Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, com dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral, ele mostra que entre 2010 e 2026 o eleitorado brasileiro cresceu cerca de 15%. No mesmo período, o eleitorado com 60 anos ou mais teve um crescimento de 74%. São 36,2 milhões em 2026.
Aí, Baia é cirúrgico. “Não se trata de um detalhe estatístico. Trata-se de uma mutação estrutural. Os idosos deixaram de ser margem. Tornaram-se centro (...). Ignorar isso é mais que um erro. É uma cegueira política”.
Entre os eleitores idosos, os que têm entre 60 e 69 anos têm voto obrigatório. São 19,7 milhões de pessoas. Já os eleitores de 70 anos ou mais têm voto facultativo. São 16,5 milhões de pessoas. Portanto, diz ele, 45,5% dos idosos já estão fora da obrigação formal de comparecer às urnas.
A Nexus mostra, segundo Baia, que em 2022 a abstenção média do eleitorado brasileiro foi de 20,9%. Mas entre 70 anos ou mais chegou a 58,9%.
Daí vem o alerta de Paulo Baia. “O Brasil carrega, portanto, uma reserva eleitoral gigantesca (...) no sentido da presença possível. Milhões de idosos que podem votar, mas que nem sempre votam. Que podem decidir eleições, mas que dependem de estímulos concretos para transformar intenção em gesto”.
Em 2022, 11,3 milhões de idosos deixaram de votar. “Desses, 2,6 milhões estavam entre 60 e 69 anos. E 8,8 milhões tinham mais de 70 anos”.
No Espírito Santo, são 24% de idosos, em relação ao eleitorado total.
Aí, diz Baia: “O erro das campanhas está em subestimar essa densidade. Em tratar o idoso como previsível. Como homogêneo. Como passivo”.
Em eleições decididas por menos de 2 milhões, como em 2022 no Brasil, um contingente de 36,2 milhões de eleitores não é um detalhe. “Os idosos não são apenas uma categoria etária. São uma força política em expansão”, alerta Paulo Baia.
Por sua vez, Otoni de Paula argumenta que “no Brasil, poucas confusões são tão recorrentes quanto a tentativa de igualar o conservadorismo ao bolsonarismo”.
Ele registra, como sabemos, que o pensamento conservador vem de uma doutrina filosófica histórica. É uma tradição política. Já o bolsonarismo “é um fenômeno político recente, brasileiro, estruturado em torno da figura de Jair Bolsonaro, de sua linguagem pública, de seu método e da comunidade política formada ao seu redor”.
Para ele, “o bolsonarismo, ao radicalizar pautas conservadoras e convertê-las em linguagem de confronto, ajudou a aprofundar uma divisão político-cultural no país. O resultado foi uma polarização corrosiva, que divide famílias e o país, enfraquecendo o sentimento de pertencimento de seu povo”.
É um alerta político óbvio, mas relevante. Há conservadores que aderiram ao bolsonarismo como narrativa política para guerra ideológica. Mas há conservadores não bolsonaristas espalhados pelo espectro político, para além da extrema direita.
O Brasil, registrou Felipe Nunes em seu livro “Brasil no Espelho”, é um país conservador. Não necessariamente bolsonarista. A base do próprio Lula tem forte presença de brasileiros conservadores.
Em tempo de processo de definição de razões de votos, até outubro, o alerta de Otoni é relevante. Alerta ao sectarismo, que leva ao conflito polarizador que paralisa o Brasil.
Já o alerta de Paulo Baia mostra que os senhores políticos do Brasil precisam conversar com a sabedoria dos idosos e motivá-los a voltar a acreditar no Brasil.