Há quem insista em medir regimes políticos apenas pelo número de mortos. É uma tentação fácil: contar cadáveres parece oferecer objetividade. Mas reduzir a ditadura militar brasileira (1964–1985) a uma aritmética de violência é um equívoco histórico.
O que esteve em jogo não foi apenas a vida ceifada de centenas de pessoas, mas a supressão de liberdades, a censura, a tortura e o cerceamento da cidadania. Democracia não se mede apenas em sangue, mas em direitos, instituições e oportunidades.
Os números econômicos do período militar são conhecidos. Entre 1968 e 1973, o PIB brasileiro cresceu em média 11% ao ano, segundo dados do Banco Mundial. O PIB per capita saltou de US$ 441 em 1970 para mais de US$ 1.100 em 1975.
Mas, como mostraram estudos de Ricardo Barros e Rosane Mendonça nos anos 1990, esse crescimento foi acompanhado por uma concentração brutal: o décimo mais rico da população passou a deter quase metade da renda nacional, enquanto os 40% mais pobres ficavam com menos de 10%.
O IBGE registra ainda que o salário mínimo real caiu 44% entre 1960 e 1976. Crescimento sem distribuição é como um edifício erguido sobre areia: impressiona à primeira vista, mas não sustenta o futuro.
A crise dos anos 1980 mostrou o custo da aposta autoritária. A dívida externa explodiu, a inflação corroeu salários e o país mergulhou na chamada “década perdida”. O regime que prometia ordem e progresso deixou como herança instabilidade e desigualdade. O contraste é eloquente: sem instituições democráticas sólidas, o crescimento revelou-se insustentável.
A literatura comparada reforça essa lição. Adam Przeworski e Fernando Limongi, em "Democracy and Development" (Cambridge University Press, 2000), demonstraram que democracias não crescem menos que ditaduras e oferecem maior estabilidade. John Gerring e colegas, em artigo publicado na revista World Politics (2005), mostraram que o efeito da democracia sobre o crescimento é cumulativo, como um estoque histórico de capital humano e institucional.
Revisões mais recentes, como a de Gerring, Knutsen e Berge na Annual Review of Political Science (2022), confirmam que os efeitos da democracia sobre governança e desenvolvimento são em geral positivos ou nulos, raramente negativos.
E como lembrou Amartya Sen em "Development as Freedom" (1999), “nenhuma fome de grande escala jamais ocorreu em um país democrático com imprensa livre”. A frase resume bem o ponto: instituições abertas funcionam como alarmes contra catástrofes, obrigando governos a agir.
É nesse ambiente que floresce o empreendedorismo – pesquisas recentes mostram que liberdade de expressão e participação cívica são motores da criatividade e da iniciativa empresarial.
O Brasil contemporâneo ainda carrega cicatrizes da ditadura. Mas também carrega a prova viva de que a democracia, com todos os seus defeitos e crises, é o único caminho para conciliar crescimento com inclusão.
Não se trata de idealizar: democracias enfrentam populismos, clientelismos e desigualdades persistentes. Mas, ao contrário das ditaduras, oferecem mecanismos de correção, transparência e participação.
O desafio, portanto, não é relativizar o autoritarismo com comparações numéricas, mas aperfeiçoar continuamente nossas instituições democráticas. Cabe a cada cidadão defender esse patrimônio: exigir transparência, participar da vida pública, valorizar o debate plural. Democracia é processo, não estado final. É construção diária, feita de escolhas pequenas e grandes.
Se o “milagre econômico” da ditadura foi um castelo de cartas, a democracia é o alicerce invisível que sustenta o desenvolvimento de longo prazo. É nela que se encontram as condições para que o crescimento se transforme em bem-estar, e para que o empreendedorismo floresça como expressão da liberdade.
O futuro do Brasil não depende de milagres, mas da persistência em fortalecer a democracia – esse fio invisível que, quando bem tecido, sustenta toda a trama do desenvolvimento.