Tive recentemente o privilégio de almoçar com Joel Mokyr, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2025 e um dos maiores historiadores econômicos de nossa época. Saí do encontro com uma reflexão especialmente relevante nesse momento em que o mundo discute inteligência artificial, produtividade, inovação e o futuro do crescimento econômico. A lição é simples, mas frequentemente esquecida: o progresso não é inevitável.
Quando observamos a maior parte da história humana, percebemos que a estagnação foi a norma. Durante séculos, sociedades inteiras viveram praticamente sem aumento significativo de renda, produtividade ou qualidade de vida. O crescimento sustentado que hoje consideramos natural é, na verdade, uma exceção histórica.
A pergunta central da obra de Joel Mokyr é justamente esta: por que algumas sociedades conseguiram romper esse padrão e outras não?
Sua resposta desafia as explicações convencionais. Em seus estudos sobre a Revolução Industrial, Mokyr argumenta que a prosperidade moderna não nasceu apenas da acumulação de capital, dos mercados ou dos recursos naturais. Ela surgiu quando determinadas sociedades passaram a valorizar sistematicamente o conhecimento útil, a experimentação e a circulação aberta de ideias.
O que ele chama de "Iluminismo Industrial" representou a aproximação entre ciência e aplicação prática. Pela primeira vez, descobertas intelectuais passaram a ser continuamente transformadas em inovação, produtividade e crescimento econômico. Mais importante ainda: consolidou-se a crença de que o conhecimento poderia melhorar a vida das pessoas e que o futuro poderia ser superior ao passado. Essa talvez seja a principal lição para o presente.
Vivemos uma nova revolução tecnológica, impulsionada pela inteligência artificial, pela biotecnologia e pela digitalização da economia. Mas a história sugere que tecnologias, por si só, não produzem prosperidade. Elas dependem de ambientes capazes de absorvê-las, difundi-las e transformá-las em oportunidades. Isso exige instituições sólidas, educação de qualidade, liberdade para empreender e abertura à inovação. Exige também sociedades que valorizem cientistas, pesquisadores, empreendedores e criadores de conhecimento.
Não por acaso, Mokyr tem alertado que uma das maiores ameaças ao progresso não é tecnológica, mas cultural e política. O populismo, a xenofobia e a hostilidade às elites do conhecimento podem enfraquecer os mecanismos que historicamente sustentaram a inovação.
Ele lembra que a ciência e a tecnologia avançam quando ideias circulam livremente e quando talentos podem se deslocar para os lugares onde são mais produtivos. Por exemplo: boa parte do dinamismo tecnológico dos Estados Unidos, das universidades ao Vale do Silício, foi construída por imigrantes e seus descendentes.
Mokyr também observa que a ciência floresce melhor em ambientes onde a pesquisa, o debate e a produção de conhecimento permanecem protegidos de interferências políticas. Ao longo da história, sociedades abertas produziram avanços científicos e tecnológicos de forma muito mais consistente do que regimes que restringiram a livre circulação de ideias.
A conversa com Mokyr me fez lembrar do saudoso Abílio Diniz. Quando completou 85 anos, ele levou casais de amigos para a Itália. Lá, nos proporcionou uma série de plenárias com professores de instituições como Harvard e MIT e batizou o evento de “De Volta à Escola”. Ou seja, o presente que Abílio ofereceu aos amigos foi o conhecimento.
Talvez, o verdadeiro debate sobre o futuro não seja tecnológico. A questão central não é se teremos inteligência artificial mais poderosa ou descobertas científicas mais extraordinárias. A questão é se continuaremos cultivando as condições que tornam possível transformar conhecimento em prosperidade.
Porque a história estudada por Joel Mokyr deixa uma mensagem clara: a estagnação é o estado natural das sociedades. O progresso é uma conquista. E toda conquista precisa ser preservada.