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Rafael Furlanetti

Como a IA redesenha empresas e redefine o capitalismo corporativo

Isso traz uma pergunta inevitável para CEOs e conselhos: que tipo de profissionais as empresas precisarão contratar daqui para frente?

Publicado em 27 de Maio de 2026 às 05:00

Públicado em 

27 mai 2026 às 05:00
Rafael Furlanetti

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Rafael Furlanetti

A inteligência artificial deixou de ser um tema de tecnologia. Tornou-se um tema de estratégia empresarial, produtividade, competitividade e sobrevivência corporativa. Um assunto de impacto para a sociedade também, que tem permeado a maioria dos painéis de que participo e das entrevistas que conduzo na TV.


Recentemente, mediei uma conversa entre três executivos de setores distintos, mas que convergiram para o mesmo diagnóstico: a IA não é mais uma aposta opcional. É uma obrigação competitiva. Para Guilherme Scheffer, Sergio Buniac e Fred Trajano, estamos entrando em uma transformação econômica comparável às grandes revoluções industriais, mas com velocidade exponencial.


Cinco percepções ficaram especialmente claras.


A primeira é que o relacionamento entre empresas e clientes mudará de forma definitiva. A inteligência artificial não apenas responde. Ela prevê, antecipa, personaliza e aprende continuamente. A lógica tradicional do atendimento reativo tende a desaparecer. O diferencial competitivo será a capacidade de chegar antes da necessidade do cliente.

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A segunda percepção é o salto de produtividade. Mas talvez ainda estejamos subestimando o que isso significa. Não se trata apenas de fazer tarefas mais rapidamente. Trata-se de executar atividades que antes simplesmente não eram economicamente viáveis ou operacionalmente possíveis. 


A IA está ampliando dramaticamente a capacidade de escala das organizações. E isso altera profundamente a estrutura de custos, a alocação de capital e a dinâmica dos mercados.


O terceiro ponto talvez seja o mais importante numa perspectiva estratégica: antecipar a demanda. Durante décadas, empresas competiram principalmente por preço, distribuição ou produto. 


Agora, a disputa migra para inteligência preditiva. Quem conseguir interpretar sinais antes dos concorrentes, como comportamento de consumo, intenção de compra, riscos, necessidades futuras, terá uma vantagem estrutural difícil de capturar pelos modelos tradicionais de gestão.

Inteligência artificial passa a fazer parte da rotina estratégica das empresas (Imagem: Fit Ztudio | Shutterstock)
Inteligência artificial passa a fazer parte da rotina estratégica das empresas Imagem: Fit Ztudio | Shutterstock

O quarto ponto é particularmente relevante para investidores e conselhos de administração: o impacto da IA nos custos aparece em lugares inesperados. Não se trata apenas de redução de folha de pagamento ou automação de atendimento. O efeito é sistêmico. 


A IA reduz fricções invisíveis: retrabalho, erro operacional, desperdício de tempo, baixa eficiência decisória, falhas de comunicação, gargalos analíticos e ineficiências gerenciais que, historicamente, eram consideradas inerentes às grandes organizações.


O quinto aprendizado talvez seja o mais desconfortável para o mundo corporativo tradicional: não existe mais a lógica clássica de aprovar inovação apenas com ROI previamente comprovado. Nenhum executivo do painel apresentou um cálculo fechado antes de começar suas iniciativas em IA. A lógica dominante passou a ser outra: testar rapidamente, aprender rápido e escalar o que funciona.


Isso muda inclusive o papel da liderança. O risco agora não é errar na implementação. O maior risco é esperar demais. A divisão que começa a surgir no mercado é entre empresas que já estão experimentando IA em escala e aquelas que ainda aguardam certezas definitivas antes de agir.


Essa percepção ficou ainda mais forte na entrevista que fiz com Alexandre Zolko, fundador da CRMBonus. Sua análise traz um ponto que muitos executivos ainda evitam discutir abertamente: o impacto social da IA sobre emprego, renda e organização econômica. 


Segundo ele, muitas empresas já poderiam operar de forma drasticamente mais enxuta. O problema é que a sociedade talvez ainda não esteja preparada para as consequências dessa transição. O debate não é mais tecnológico. É econômico e social.


Zolko descreve a evolução da IA em cinco fases. A primeira é o uso como ferramenta de pesquisa — substituir mecanismos tradicionais de busca por modelos conversacionais. A segunda é o surgimento de agentes inteligentes atuando como assistentes individuais. A terceira fase representa um salto mais profundo: agentes organizados em estruturas corporativas virtuais, interagindo entre si como áreas e departamentos de uma empresa. 


Na quarta fase, esses agentes passam a tomar decisões gerenciais de forma autônoma. E a quinta, já iniciada em algumas poucas empresas, é a automação tática avançada, em que sistemas inteiros operam praticamente sem intervenção humana constante.


Esse cenário ilustra o relato que ouvi do presidente de uma companhia aérea: reuniões do conselho da empresa já contam com agentes de IA participando das discussões, oferecendo análises e recomendações em tempo real com base no conteúdo debatido.


O fato de isso já estar acontecendo mostra o quão rapidamente a fronteira entre apoio analítico e tomada de decisão está sendo redefinida.

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Uma visão complementar surgiu na entrevista que gravei com Martin Escobari, copresidente da General Atlantic, gestora global com cerca de US$ 130 bilhões sob gestão. Sua leitura é particularmente relevante porque vem de quem analisa setores inteiros sob a ótica da alocação de capital.


Para Escobari, a IA produzirá um ganho de produtividade de escala histórica. Mas o impacto não será homogêneo. Haverá vencedores, perdedores e empresas que simplesmente ficarão irrelevantes.


Ele identifica um primeiro obstáculo: a difusão da tecnologia que já existe. O desafio é organizacional. As empresas precisam estruturar dados, preparar pessoas, redefinir processos e construir capacidade de implementação.


Segundo sua análise, muitas organizações ainda estão presas à fase inicial da IA: a experimentação dispersa. Equipes testam ferramentas, produzem pilotos interessantes e geram entusiasmo interno, mas de pouco impacto real no negócio.


A segunda fase começa quando a liderança entende que IA não pode ser apenas inovação periférica. Ela precisa estar conectada às áreas que efetivamente movem lucro, eficiência e geração de valor.


A terceira fase é ainda mais estratégica: usar IA não apenas para reduzir custos, mas para criar receitas novas e modelos de negócio que antes não existiam.


Isso traz uma pergunta inevitável para CEOs e conselhos: que tipo de profissionais as empresas precisarão contratar daqui para frente? O desafio não é apenas trazer novos talentos especializados em IA, mas redefinir competências, cultura organizacional e capacidade de adaptação contínua.


E, como alertou Escobari, se uma empresa não liderar essa transformação, outra liderará. Em algum momento, alguém usará IA para operar com custo menor, velocidade maior e capacidade superior de personalização. Quando isso acontecer, toda a lógica competitiva do setor muda junto.


O mercado ainda tende a discutir inteligência artificial como tendência. Mas, para quem está sentado nas mesas de decisão das grandes empresas globais, ela já deixou de ser futuro. Tornou-se infraestrutura estratégica.

Rafael Furlanetti

Capixaba de São Gabriel da Palha, é sócio e diretor de Relações Institucionais da XP e presidente da Ancord (Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias). Escreve quinzenalmente neste espaço sobre empreendedorismo, inovação e negócios ao público do Espirito Santo

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