Conheça a geração que não espera: o novo protagonismo brasileiro
Conferência
Conheça a geração que não espera: o novo protagonismo brasileiro
O Brasil Project é um catalisador: cria o ambiente, conecta as pessoas e estimula um tipo de ambição que o Brasil precisa. Uma ambição coletiva, estruturante e orientada para a ação de longo prazo
Estive na primeira edição do Brasil Project, realizada entre a Harvard University e o MIT, no último fim de semana, em Boston (EUA). Saí de lá com uma convicção renovada: há uma geração de brasileiros pronta para reposicionar o país no mundo. E ela já começou a agir.
O Brasil Project é mais do que um evento. Trata-se de um "think tank" criado por estudantes brasileiros no exterior com o objetivo de conectar o Brasil aos grandes debates globais. A iniciativa reúne jovens talentos, acadêmicos, executivos e formuladores de políticas públicas para discutir caminhos concretos para o desenvolvimento do país. Mais do que teorizar e fazer diagnósticos, o projeto aposta em articulação, produção de conhecimento e, sobretudo, protagonismo. É uma ponte, intelectual e prática, entre o Brasil e os principais centros de pensamento do mundo.
O que mais impressiona, no entanto, são as pessoas.
Conheci Vitória Bezerra e seu irmão Daniel, ambos de Nova Iguaçu (RJ). Vitória, com um histórico brilhante em olimpíadas de física, foi aceita em três universidades de ponta nos Estados Unidos e escolheu a Yale University. Daniel seguiu um caminho igualmente singular: primeiro colocado na Marinha, ingressou no ITA, mas decidiu sair antes da conclusão para empreender. Fundou startups, uma delas em Dubai, e hoje lidera a Vigil Labs AI, com a ambição de transformar o mercado de gestão de investimentos por meio de dados de prediction markets.
Também encontrei Jean Gonçalves, de Duque de Caxias (RJ), hoje no Barclays, e seu amigo Gabriel Soares, de Osasco (SP), que decidiu redirecionar sua carreira para ampliar o acesso de jovens negros ao mercado financeiro. Dessa inquietação nasceu a Black Finance, uma iniciativa que combina educação, representatividade e propósito real de transformação.
Outro exemplo emblemático é o de Mário Augusto e Victor Trindade. Ainda adolescentes, criaram um canal de YouTube que atingiu milhões de inscritos. A dificuldade de monetizar o conteúdo, por serem menores de idade, revelou uma falha de mercado — e virou negócio. Fundaram a Trampolim, fintech de “bank as service”, posteriormente vendida para a Stone. Hoje, lideram a NG Cash, um banco digital voltado a jovens que ainda estão à margem do sistema financeiro tradicional.
E, em meio a esses brasileiros, encontrei também figuras globais como Ali Partovi. Sua trajetória — do Irã aos Estados Unidos, passando pela criação de empresas e investimentos precoces em gigantes como Facebook, Airbnb e Uber — é um lembrete poderoso do impacto que visão e educação podem gerar. Seu trabalho à frente do Code.org, que já levou ensino de programação a centenas de milhões de crianças, reforça essa mensagem.
Durante os três dias de evento, tivemos ainda a oportunidade de ouvir lições de brasileiros que construíram impérios, como Jorge Paulo Lemann, nosso maior empresário vivo. E de brasileiros que administram impérios, como Henrique Braun, CEO mundial da Coca-Cola, e Michel Doukeris, CEO global da AB InBev. Perguntei aos dois o que eles fizeram de diferente para chegarem aos postos que ocupam hoje.
Jorge Paulo Lemann, empresárioCrédito: Divulgação
Compartilho com você as respostas: mandar um fax com o mesmo carinho e força com que tomaria uma decisão bilionária; ter paixão por servir, de forma genuína; estudar e se preparar sempre; nunca esperar que peçam para fazer o que você já sabe que deve ser feito; e fazer bem o básico - ninguém é um gênio todos os dias.
Ou seja, nenhuma das respostas foi sobre talento. Todas foram sobre caráter e consistência.
Assim, o que une todas essas histórias é mais do que talento. É iniciativa. É a disposição de não esperar soluções prontas, mas de construir caminhos. O Brasil Project é, nesse sentido, um catalisador: cria o ambiente, conecta as pessoas e estimula um tipo de ambição que o Brasil precisa. Uma ambição coletiva, estruturante e orientada para a ação de longo prazo.
Saí da conferência convencido de que o Brasil pode moldar tendências globais, não apenas segui-las. E de que maior ativo do Brasil não está apenas em seus recursos naturais ou em seu mercado consumidor, mas em sua gente — especialmente nessa geração altamente qualificada, diversa e globalizada.
Se conseguirmos ampliar o acesso à educação de qualidade e criar condições para que mais talentos floresçam, o país tem todas as condições de dar um salto relevante de desenvolvimento. O futuro do Brasil não será importado. Ele está sendo desenhado, neste momento, por jovens que decidiram participar do debate — e, mais importante, da construção.
Rafael Furlanetti
Capixaba de Sao Gabriel da Palha, e socio e diretor de Relacoes Institucionais da XP e presidente da Ancord (Associacao Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Titulos e Valores Mobiliarios, Cambio e Mercadorias). Escreve quinzenalmente neste espaco sobre empreendedorismo, inovacao e negocios ao publico do Espirito Santo