Desde que Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, em 28 de fevereiro, o preço do petróleo disparou. Os efeitos dessa alta vão atingir todos nós. Como é uma matéria-prima básica para o transporte, o petróleo influencia toda a economia global: inflação, crescimento e preço de ativos. Quando ele sobe rapidamente, o impacto é imediato.
E há um ponto importante: essa mudança aparece antes de tudo na formação das previsões de mercado para os juros.
Os números mostram o tamanho da tensão. O barril do petróleo tipo Brent saiu de cerca de US$ 77 no fim de fevereiro e chegou a bater US$ 119, o maior nível desde 2022. Oscilações violentas, guiadas por manchetes de guerra, revelam um mercado extremamente sensível a qualquer novidade. O Irã ameaça o Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% do petróleo mundial. Só essa possibilidade já é suficiente para elevar o prêmio de risco no preço da energia. E, quando a energia sobe, a inflação acompanha.
Antes da escalada da guerra e do petróleo acima de US$ 100, o mercado brasileiro de juros operava com um cenário relativamente claro. A expectativa era de um ciclo de queda da Selic de cerca de 300 pontos-base. Para a reunião do Copom agora em março, a principal previsão era de 70% de probabilidade de corte de 0,50 ponto percentual, 25% de probabilidade de corte de 0,25 ponto e apenas 5% de probabilidade de manutenção da taxa. O mercado estava confortável com o início de um ciclo mais consistente de queda.
O cenário, no entanto, mudou rapidamente. Dados de inflação mais pressionados, atividade ainda resiliente — com números fortes de emprego e varejo — e, principalmente, o choque do petróleo com a guerra provocaram uma reprecificação relevante.
Em poucos dias, as previsões mudaram de forma significativa. Hoje, o mercado trabalha com aproximadamente 40% de probabilidade de manutenção dos juros, cerca de 50% de probabilidade de corte de apenas 0,25 ponto percentual e apenas 10% de probabilidade de um corte de 0,50 ponto. Em outras palavras, o cenário que antes era base passou a ser minoritário.
Além disso, o próprio ciclo de queda foi revisto. O que antes era projetado como uma redução de cerca de 3 pontos percentuais agora está mais próximo de 1,5 ponto. Na prática, significa que os juros devem cair, mas metade do que se imaginava algumas semanas atrás.
O movimento tem efeitos diretos na economia real. Para o empreendedor brasileiro, que depende de crédito para investir e expandir, o custo do dinheiro tende a permanecer elevado por mais tempo. Para o consumidor, o impacto aparece no crédito mais caro, dificultando decisões como financiar um carro, adquirir eletrodomésticos ou parcelar compras.
Esse é um fenômeno clássico da economia global. Um conflito geopolítico a milhares de quilômetros de distância pressiona o preço do petróleo, que por sua vez pressiona a inflação. Diante disso, os bancos centrais adotam uma postura mais cautelosa na condução da política monetária. O resultado é uma economia mais conservadora e juros elevados por mais tempo.
A duração e a intensidade desse cenário ainda são incertas. Caso haja uma desescalada do conflito ou uma normalização dos preços do petróleo, as previsões podem voltar a se ajustar. Mas, neste momento, a mensagem do mercado é clara: a trajetória de queda de juros ficou mais curta e mais incerta.
O Brasil tem algumas vantagens, como uma matriz energética mais diversificada, menos dependente do petróleo do que outras grandes economias. Ainda assim, não está imune. Além disso, permanece o dilema conhecido em relação aos combustíveis. Se a Petrobras repassar a alta internacional, pressiona a inflação; se mantiver os preços artificialmente baixos, compromete resultados e, no limite, transfere esse custo para a sociedade.
No fim, a conclusão é simples: o petróleo subiu, e o mercado mudou suas previsões. E, quando as previsões mudam, o impacto chega rapidamente à economia real.
Recomendo apertar os cintos.
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