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Economia

O Brasil que não para de dever, e a conta que todo mundo paga

Não estou aqui para catastrofizar. O Brasil já viveu situações fiscais piores e se recuperou. Mas o caminho de recuperação sempre exigiu disciplina

Públicado em 

01 abr 2026 às 04:30
Rafael Furlanetti

Colunista

Rafael Furlanetti

O Banco Central divulgou na segunda-feira os números monetários e de crédito relativos a fevereiro. E, com razão, não faltaram manchetes destacando o endividamento das famílias. Quase metade da renda acumulada em 12 meses (49,7%) já está comprometida com o sistema financeiro. O comprometimento mensal da renda chegou a 29,3%, um recorde histórico. Em outras palavras, quase um terço de tudo o que uma família brasileira ganha vai direto para pagar o que deve.
E não são poucos os endividados. Segundo a Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor feita pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 80,2% das famílias tinham dívidas em fevereiro desta ano, o maior patamar de toda a série histórica, desde 2010.
Para quem acompanha o mercado, os números até já eram esperados. Mas o que me chama atenção não é o dado isolado, e sim a persistência. A pandemia criou um choque no endividamento das famílias. O que a gente esperava era que, com a normalização da economia, o nível recuasse. Não recuou. Ficou. E continuou subindo.
Nos bastidores do Planalto, o tema já acendeu o sinal amarelo: em ano eleitoral, 40 milhões de pessoas no rotativo do cartão de crédito, pagando juros de 436% ao ano, é uma combinação politicamente explosiva. O presidente reuniu a equipe econômica. O problema virou prioridade.

O paralelo que ninguém quer fazer, mas precisa ser feito

Agora vamos além da manchete. O que me incomoda (e deveria incomodar você também) é que esse retrato das famílias brasileiras tem um espelho perfeito nas finanças públicas. E ninguém gosta de olhar para esse espelho.
A dívida bruta do governo brasileiro fechou 2025 em 78,7% do PIB. Em fevereiro, já avançou para 79,2%. O Tesouro Nacional projeta que esse número suba para 83,6% do PIB ainda em 2026. A Instituição Fiscal Independente, órgão vinculado ao Senado, é mais pessimista: prevê 86,3% até o fim do governo. No horizonte mais longo, os cálculos da IFI apontam que a dívida pode ultrapassar 100% do PIB em 2030 — ou seja, o Brasil devendo mais do que tudo o que produz em um ano.
Pense bem nessa comparação. Uma família brasileira comprometeu 29,3% da renda mensal para pagar dívidas. O governo comprometeu quase 80% do que o país produz no ano inteiro para honrar o seu estoque de dívida. A lógica é a mesma. As consequências também.

"Mas o governo é diferente — ele não quebra"

Quando falo disso em conversas, a resposta mais comum é: "Mas o governo é diferente. Ele imprime dinheiro, ele não quebra do mesmo jeito." E tecnicamente, há uma verdade aí. Estados soberanos têm mecanismos que famílias não têm.
Mas aqui está o ponto que a maioria das pessoas não entende: quando o governo não paga a conta de um jeito convencional, ele paga de outro. E quem paga junto com ele somos todos nós.
O mecanismo de transmissão funciona assim: governo muito endividado precisa rolar a dívida a custos altos, ou seja, precisa de juros elevados para atrair compradores. A Selic sobe ou permanece alta. Com isso, o crédito encarece para todo mundo, e as famílias se endividam mais para manter o consumo. Assim, a inadimplência cresce, a atividade desacelera, a receita do governo cai, o déficit aumenta, e tudo isso gera mais dívida. Um ciclo perfeito de retroalimentação.
E quem sofre nesse ciclo? O aposentado que vê o serviço público se deteriorar porque o orçamento foi consumido pelo pagamento de juros. O trabalhador que paga 33% ao ano no crédito pessoal porque a Selic está em 15%. O empreendedor que não consegue financiar capital de giro a custo razoável. Todos nós sofremos.

Finanças pessoais e finanças públicas têm mais em comum do que você imagina

Trabalho há mais de 20 anos no mercado de capitais. Já vi empresas excelentes destruírem valor por não respeitarem um princípio simples: dívida é uma ferramenta, não uma fonte de renda. Quando você toma crédito para investir em algo que gera retorno superior ao custo da dívida, faz sentido. Quando você toma crédito para pagar consumo corrente ou rolar dívida velha, o buraco vai ficando mais fundo.
Na família, funciona igual. Financiar a casa própria faz sentido, é formação de patrimônio. Parcelar a feira no rotativo do cartão é caminho sem volta. O governo brasileiro, infelizmente, tem feito muito da segunda categoria: gasto corrente financiado por dívida, em escala bilionária, por anos seguidos.
O Tesouro reconhece que quase metade dos títulos públicos remunera à Selic. Quando a Selic sobe para conter a inflação (que também é parcialmente causada pelo excesso de gastos), o custo da dívida explode. E o governo precisa emitir mais dívida para pagar os juros da dívida anterior. É a armadilha fiscal em movimento.

O que está em jogo e o que precisa mudar

Não estou aqui para catastrofizar. O Brasil já viveu situações fiscais piores e se recuperou. Mas o caminho de recuperação sempre exigiu disciplina, a "commodity" mais escassa em ano eleitoral.
Para estabilizar a dívida pública no nível atual, a IFI calcula que o governo precisaria gerar superávit primário de 2,1% do PIB, ou seja, arrecadar mais do que gasta antes dos juros, consistentemente. Hoje estamos no déficit. A trajetória é de piora. Sem ajuste real, o pico da dívida simplesmente se desloca no tempo, cada vez maior.
O mesmo vale para as famílias. O endividamento estrutural pós-pandemia não vai se resolver sozinho. A Selic caindo vai ajudar na margem, mas o problema central é outro: o brasileiro aprendeu a conviver com dívida cara como se fosse normal. Não é.
Selic, a taxa básica de juros brasileira, está numa trajetória de alta devido à inflação
Selic Crédito: A Gazeta/Canva Pro
Quando quase um terço da renda mensal vai para dívidas, sobra pouco para poupança, investimento e construção de patrimônio. O país que não poupa é o país que não investe. E o país que não investe não cresce. Não é fatalismo — é matemática.
Os dados desta semana não são apenas estatísticas. São um retrato de um país onde governos e famílias, cada um à sua maneira, postergam decisões difíceis. O problema é que postergação tem prazo de validade, e a conta, mais cedo ou mais tarde, sempre chega.

Rafael Furlanetti

Capixaba de São Gabriel da Palha, é sócio e diretor de Relações Institucionais da XP e presidente da Ancord (Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias). Escreve quinzenalmente neste espaço sobre empreendedorismo, inovação e negócios ao público do Espírito Santo

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