No Brasil, as pessoas precisam ter medo de ser punidas. Não é uma provocação. É uma constatação econômica. Ainda em 1968, o Nobel de Economia Gary Becker já demonstrava que o criminoso faz um cálculo racional: se o custo supera o benefício, ele não age. Por que ninguém dirige bêbado nos Estados Unidos? Não é porque o americano seja mais virtuoso, e sim por haver um custo alto, certo e rápido. Aqui o custo é baixo, incerto e lento. E o crime sabe disso.
Participei nesta semana de um painel sobre infiltração das facções no mercado e no setor privado, num evento do ES em Ação, entidade que nasceu em 2003 para combater os desmandos, a corrupção e o crime organizado que deixavam o Espírito Santo praticamente quebrado. Falo como capixaba, de São Gabriel da Palha, e sei o quanto custa construir algo limpo numa região onde o crime tenta ocupar os espaços que o Estado não preenche.
O crime organizado brasileiro está em transição para uma “geração 2.0", que foi para a faculdade, contratou advogado, abriu empresa, participou de licitação. Como o personagem Michael Corleone de “O Poderoso Chefão", foi se sofisticando. E, por isso, é mais perigoso.
Essa sofisticação aumenta a opacidade, o ambiente onde o crime prospera. A Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, escancarou isso ao Brasil. O PCC não estava apenas nos postos de gasolina. A facção comprou usinas de cana-de-açúcar, fazendas, transportadoras e terminal portuário. Ou seja, controlava toda a cadeia produtiva, da plantação até a bomba de combustível.
O patrimônio do esquema chegou a R$ 52 bilhões. Uma das usinas investigadas fornecia açúcar para uma das maiores indústrias alimentícias do mundo. Ninguém sabia.
E o crime atravessou a porteira do agronegócio. No Sul da Bahia, grupos criminosos armados invadem propriedades rurais, roubam café verde antes da colheita e expulsam produtores com fuzis. Mais de 60 propriedades foram invadidas desde 2022. Investigações da Polícia Federal mostram que PCC e Comando Vermelho compram fazendas com laranjas para lavar dinheiro do tráfico como “custo operacional”. O prejuízo estimado da lavagem via agronegócio é de R$ 200 bilhões por ano.
Isso não é problema só de segurança pública. É concorrência desleal. É a destruição do empresário honesto que paga tributo, salário, energia, e compete com quem não paga nada porque tem “proteção”.
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O crime também está entrando na política. Desde que o STF proibiu o financiamento empresarial de campanhas em 2015, criou-se um vácuo perigoso. O promotor Lincoln Gakiya, especialista no PCC, é direto: a facção busca “ter negócios com o poder público”.
Não quer ser prefeito; quer que o prefeito seja grato a ela. E enquanto o cidadão honesto tem vergonha de financiar política porque seu nome vai para a lista pública, o crime financia sem CPF, sem nota fiscal, sem constrangimento. Financiar a democracia deveria ser um ato de civismo, como acontece nos Estados Unidos, onde o lobby é regulado e reconhecido como parte do processo democrático.
Há uma série de soluções em discussão atualmente. Isso é positivo, desde que elas sejam postas em ação, não fiquem só no debate. Na minha visão, há três frentes que podem gerar bons resultados. Elas valem tanto para pequenos delitos, como para as poderosas lideranças de grupos e esquemas criminosos.
Primeira: não apenas ter penas duras, mas sobretudo haver a certeza de que elas serão cumpridas. Não adianta legislação severa se o criminoso souber que sai na audiência de custódia. Desde 2015, quase 40% dos presos foram soltos nessas audiências. O ex-ministro Luís Roberto Barroso reconheceu: soltar reincidente repetidamente incentiva a reiteração delitiva.
Segunda: tolerância zero. Nova York era a capital do crime nos EUA. Com a política implantada pelo então prefeito Rudolph Giuliani em 1994, os homicídios caíram 61% e os crimes em geral, 44%. Tolerância zero não é brutalidade, é previsibilidade. É o Estado dizendo que as regras valem para todo mundo.
Terceira: reforma prisional. As prisões brasileiras funcionam hoje como escritórios para líderes de facções e universidades do crime. O preso entra pequeno e sai qualificado. Isso não é ressocialização. O Estado está, na prática, financiando a expansão do crime.
O mercado de capitais tem papel nessa equação. É o ambiente mais hostil ao crime que existe na economia brasileira, porque cada cliente é identificado, cada transação é rastreada, o COAF monitora operações suspeitas. A empresa que acessa o mercado de capitais traz governança e transparência e se torna incompatível com o crime por design.
A maior vítima da infiltração do crime não é o Estado. É o empresário honesto do Espírito Santo e de todo o Brasil. É o cidadão que teme pela vida, pelos bens, e vive com medo de sair à rua. São os setores da economia que perdem oportunidades de receber investimentos por causa da falta de segurança pública.
A solução existe, está testada e precisa de coragem política. Elevar o custo do crime — com penas certas, sistema prisional sério e tolerância zero institucional — é a forma de recuperar a prosperidade que o crime nos rouba todos os dias.