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Influência externa

O que temos a aprender com o neoliberalismo inglês?

O esgarçamento do tecido social, a falta de perspectiva econômica e a aceleração da crise climática são evidências que exigem mudança radical dos rumos do sistema de produção, circulação e distribuição de bens, serviços, conhecimento e riqueza

Públicado em 

12 mar 2020 às 05:00
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

Margaret Thatcher, a dama de ferro Crédito: Divulgação
Berço primeiro do ideário neoliberal com Margaret Thatcher à frente da crença de que "...inexiste sociedade; o que conta são indivíduos e família...", a Inglaterra pode servir como uma bom caso para avaliar os resultados da apologia do todo poderoso mercado. Quarenta anos após a chegada da "dama de ferro" ao poder, algumas avaliações – cada uma com seu viés - merecem ser analisadas.
Uma delas usa a linguagem cinematográfica e é resultado do trabalho do diretor Ken Loach e do roteirista Paul Lavery. Em 2016, eles trouxeram ao público "Eu, Daniel Blake", uma crítica à precarização dos serviços públicos, à perda de emprego e de direitos sociais. Fizeram isso através de casos comuns que exemplificam o desmonte do papel do Estado como promotor de políticas públicas de bem-estar social.
Daniel Blake é um homem de meia idade que devido a um ataque cardíaco é proibido pôr seus médicos de voltar a trabalhar. Para ter como se sustentar, o personagem vai à procura do Estado requisitar seus direitos como um cidadão incapacitado para o trabalho. Seu pedido é negado e ele fica de mãos atadas, sem poder trabalhar e sem nenhuma fonte de renda.
O retrato do desmonte do sistema de seguridade social vai além do personagem principal para tratar também de uma amizade por ele construída com uma mãe solteira e suas duas crianças, também sem acesso à seguridade social. Tanto a solidariedade que emerge dessa amizade quanto a crueldade que resulta do desmonte do estado de bem-estar social podem ser constatadas de forma mais ampla na Inglaterra e em outros países onde impera a ótica neoliberal.
Estão aí o já acontecido no Chile, como consequência do receituário de Paulo Guedes, e já se sentem no Brasil resultados socialmente amargos da mercantilização extremada dos serviços de saúde, educação e previdência.
A mesma dupla trouxe recentemente "Você não estava aqui", trama que se passa em 2018, em Newcastle. Desempregado e sem oportunidades na construção civil, o personagem principal consegue vaga em uma empresa que faz entregas. A tal empresa o caracteriza não como um empregado, mas como seu próprio patrão, fazendo seu horário e utilizando a própria van.
Com o tempo o personagem percebe que sua autonomia não condiz com a realidade, pois ele tem prazos cada vez mais absurdos para fazer suas entregas e que para ter dinheiro suficiente para ajudar em casa, precisa fazer turnos desumanos. Turnos desumanos que o afastam da família e de sua mulher que também trabalha horas demais como autônoma enquanto cuidadora de idosos e portadores de deficiências.
Nessas circunstâncias, dar atenção ao filho adolescente - que quer abandonar a escola por entendê-la incapaz de cumprir a promessa de melhores dias para quem a frequenta -, e à caçula - que sofre com a ausência cada vez maior dos pais - é missão quase que impossível. Diante de uma das facetas perversas do neoliberalismo – precarização do trabalho - a trama construída por Loach e Lavery é uma constatação de que a propagada liberdade individual e a primazia da família nada mais são do que farsas.
Constatação feita baseada em depoimentos de empreendedores uberizados em um país dito desenvolvido e que certamente podem ser confirmadas por quem se interessar em estudar os efeitos no neoliberalismo em outras partes do mundo.
Para quem prefere críticas mais financistas, também vem da Inglaterra alerta sobre resultados da apologia da livre atuação de empresas. Nada mais nada menos do que o presidente do banco central inglês, Mark Carney, indica riscos sistêmicos para os bancos provocado pelo descaso de empresas para com a imperiosidade de se moverem em direção à emissão zero de carbono.
A continuar a quase total liberdade de mercado – o que implica em descaso para com evidências científicas e desmonte de agências reguladoras, como preconizam Trump e Bolsonaro - pode ser iminente o colapso abrupto do sistema financeiro. Ou seja, a próxima crise sistêmica – longe da questão de financiamentos imobiliários como em 2008 - terá como estopim principal financiamentos concedidos a empresas que continuam – por falta de regulação e controle por parte de governos - adiando ações para reverter emissões que provocam e ampliam a crise climática.
Seja por qual ângulo que se queira ver a crise social, econômica e política pela qual passa o mundo, é preciso reconhecer a contribuição para tal da aplicação do receituário neoliberal. Seja em países centrais, como os Estados Unidos e a Inglaterra, seja em outros, como o Chile e o Brasil, o esgarçamento do tecido social, a falta de perspectiva econômica e a aceleração da crise climática são evidências que exigem mudança radical dos rumos do sistema de produção, circulação e distribuição de bens, serviços, conhecimento e riqueza.
Radicalidade que implica aprender com as lições dos fracassos do neoliberalismo onde ele foi aplicado; e em reconhecer a falta de ética social e racionalidade econômica quando se desmontam no Brasil o sistema de seguridade social e as garantias constitucionais de acesso a serviços públicos de saúde, educação, dentre outros.
Radicalidade que reconheça que em uma economia globalizada é fundamental que o governo pare de desmontar e passe a ampliar e fortalecer o Banco do Brasil, a Caixa Econômica e o BNDES que a todos pertencem. Bem como estatais como a Petrobras, a Embrapa, a Fiocruz, entre outras.
Como praticar essa radicalidade? Um bom começo pode ser a melhora da qualidade da informação que chega ao público através do embate de ideias e valorização do contraditório. Missão que exige mudanças na forma e no conteúdo do que vêm a público, seja por trabalhos da academia, seja pela forma como a mídia de mercado os divulgam.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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