Em entrevista bem recente, o ex-embaixador do Brasil em Whashington, Roberto Abdenur, ao comentar sobre a política externa brasileira do atual governo não hesitou em dizer que o nosso país passa por um processo de isolamento diplomático. E foi mais além ao ponderar que o Brasil contaria hoje com a amizade explícita de três países e meio.
Os Estados Unidos seriam esse país de meia amizade. E que poderá perdê-la caso o democrata Biden vença as eleições. Já as outras amizades, tidas como plenas, estariam sendo representadas por Israel - e é bom que se diga, com arranhões provocados pelo ex-ministro da Educação Weintraub -, a Polônia e a Hungria.
O que está acontecendo não combina com o nosso histórico, cuja diplomacia sempre primou pela conciliação, pela solidariedade, pelo engajamento em discussões de temas de abrangência e de interesses globais, e pela paz. O que vemos hoje é bem diverso e mostra-se como um processo de ideologização muitas vezes extremada e também pouco afeita ao pragmatismo, e que é exigido nesse campo. Envereda-se, ao contrário, para um nacionalismo, em certos casos saudosista, de um passado a ser esquecido, mimetizando.
A questão central é que esse comportamento, além do isolamento diplomático – não bastasse o isolamento no trato da pandemia da Covid-19 - vem provocando um certo receio, interna e externamente ao país, que já começa a provocar reações adversas e de precauções vindas de países, blocos e também de grandes investidores internacionais.
A carta aberta mostrada ao mundo pelos executivos dos maiores fundos de investimentos, e que administram algo em torno de US$ 4 trilhões alertando para os posicionamentos do Brasil, especialmente em relação à pauta ambiental, não deixa de ser uma sinalização para o alto risco. E mais do que isso, indesejada neste momento de crise em escala global.
O setor exportador brasileiro, e em especial o agronegócio, tem explicitado de forma crescente um certo desconforto e, ao mesmo tempo, receio de que esse isolamento chegue também no campo das relações comerciais. O movimento na Europa em torno da “pauta verde”, assumida tanto por países como por empresas transnacionais, é outra frente que preocupa. É muito provável que o Brasil, e com ele o Mercosul, encontre barreiras adicionais a um fechamento de acordo de livre comércio com a União Europeia.