Começou pela pressão de lideranças empresariais para que a normalidade econômica fosse retomada. Ou seja, que comércio fosse totalmente liberado para voltar ao seu funcionamento como se a pandemia da Covid-19 já estivesse superada. Como se tivessem esquecido que o "normal" de antes de março de 2020 era uma recessão econômica provocada por fatores externos – principalmente a guerra comercial provocada por Trump contra a China, e fortemente turbinada no Brasil pela falta de política voltada para o crescimento econômico. Ou seja, a proposta de relaxar as medidas de isolamento e distanciamento social feita por especialistas em saúde pública seria para a economia voltar à trajetória de crise aprofundada desde 2015.
O endosso de representantes das maiores empresas às medidas adotadas pelo governo Casagrande contrárias ao recomendado pela OMS e por especialistas em saúde pública daqui do Espírito Santo veio através de notas e entrevistas veiculadas pela grande imprensa. De forma resumida, o indicado por essas representações era que a população assumisse a responsabilidade pelo distanciamento social e pelo isolamento.
Fazendo vistas grossas à exclusão e às desigualdades sociais que prevalecem na sociedade brasileira, de maneira geral, e na capixaba, de forma específica, apontavam como culpados pelo agravamento da pandemia as vítimas da exclusão e da desigualdade.
Segundo essa lógica perversa, culpados são moradores de rua, de favelas e bairros mais pobres onde as condições de moradia são precárias. Falta abrigo digno, no mínimo pelas dimensões inadequadas e condições sofríveis das casas. Falta saneamento, equipamentos adequados para o atendimento de serviços básicos como saúde, educação, transporte e lazer. Falta trabalho e quem o consegue tem que se deslocar em sistema de transporte público inadequado ou exercer sua atividade via a uberização cada vez mais generalizada.
As consequências nefastas previstas por quem valoriza a vida acima de interesse financeiros vieram rapidamente. O número de infectados e de mortos provocados pelo vírus aumentou e o Estado passou a contemplar a iminência de colapso de seu sistema de atendimento médico-hospitalar. Colapso que levaria, conforme indicou representante do governo estadual, a médicos terem que escolher entre que seria atendido e os que ficariam sem o atendimento necessário.
A forma crescentemente frouxa como a administração Casagrande conduziu o enfrentamento da pandemia - após um bom começo em que suas ações foram pautadas pela ciência e por recomendações de especialistas –, levou à necessidade de serem adotadas medidas radicais.
Radicalidade agora necessária porque a falta de afastamento social por razões de visão estreita sobre a questão econômica levou a sociedade capixaba a sucessivos adiamentos do pico da pandemia. Ou seja, ficam mais distantes as possibilidades de abrandamento responsável do afastamento social e das consequências nefastas da pandemia sobre a população e, importante que se frise, sobre as atividades econômicas.
E agora, José, José para onde? É chegada a hora de o governo Casagrande reconhecer seus equívocos no passado recente e consertar suas ações. Ações que precisam estar centradas na pessoas independentemente de renda ou raça no que diz respeito ao atendimento médico-hospitalar; que precisam contemplar as especificidades e necessidades diferenciadas de humanos que habitam ruas, favelas e bairros mais pobres; que devem priorizar o apoio com crédito e subsídios a autônomos, a micro/ pequenas/médias empresas no campo e nas cidades.
É chegada a hora de o governo estadual concertar suas ações voltadas para o atendimento prioritário das pessoas diante da gravidade da pandemia da Covid-19 e aquelas que buscam novos rumos sociais e econômicos para seus efeitos perversos.
O governador Casagrande tem a legitimidade do voto popular para ser o orquestrador maior de articulações com a sociedade voltadas tanto para a emergência do tempo presente quanto para a urgência do pensar a formação socioeconômica capixaba e com ela agir com a perspectiva do durante e do pós-pandemia.
Concertar visões e ações junto a pessoas com interesses políticos, sociais e econômicos distintos e divergentes é tarefa complexa. Complexidade que exige humildade do governante e disposição para se cercar de pessoas representativas de interesses – sociais e econômicos – conflitantes mas que se disponham a escutar outros lados e interagir na construção de convergências.
É urgente a construção de consensos entre interesses sociais e econômicos, todos canalizados por legítimos interesses políticos. Concerto de interesses que só podem ser orquestrados pelo governador Casagrande eleito também para tempos difíceis, ainda que há cinco meses fosse impossível se pensar nas dificuldades do presente.
A gente e as coisas do Espírito Santo merecem essa orquestração. A história política de Renato Casagrande exige que ele exerça com maestria essa difícil missão.