De forma distinta de organizações que se caracterizam por rigidez burocráticas, instituições precisam ser flexíveis para se adequarem a mudanças, e estáveis para para permitir que elas ocorram. Entendidas como costumes ou estruturas sociais estabelecidas por lei ou de maneira consensuada entre pessoas e seus grupos e que vigoram numa determinada sociedade, as instituições são pilares fundamentais em situações de crise.
A relevância delas é medida pela capacidade que tiverem de mudar face a situações novas e perceberem o quanto delas será temporário ou permanente. Diante da crise social e econômica agravada pela Covid-19 mundialmente, é difícil imaginar uma instituição qualquer que possa se manter igual ao que era antes do surgimento da pandemia.
A instituição família, por exemplo, está sendo afetada, independentemente de classe social, poder econômico ou político. O impacto da crise é maior junto às famílias que há muito sofrem pela marginalização econômica e social e pelo descaso de políticas públicas. Mas é inquestionável que a pandemia acentuou a violência doméstica e o esgarçamento das relações nas famílias de maneira geral, independentemente de seu nível econômico e educacional.
Vistas como instrumentos fundamentais para a construção de coesão social em prol do bem comum, saúde e educação enquanto instituições também têm que ser redesenhadas para além das adequações durante a fase mais aguda da crise atual. Na saúde, há que se reverter a prevalência da ótica da doença que é a que interessa a grande parte do complexo industrial da saúde – produtores de equipamentos médico-hospitalares e de remédios, planos e seguros de saúde, grandes redes hospitalares privadas, entre outras.
Na educação, é preciso recuperar seu sentido maior de contribuir efetivamente para a construção de cidadania. A mercantilização do ensino tem-se demonstrado perversa contra esse objetivo maior de qualquer sociedade. Na atual crise, lamentavelmente, essa mercantilização ampliou-se com os diversos mecanismos de ensino à distância que respondem prioritariamente a interesses de empresas de ensino ou a aqueles ligados às burocracias governamentais.
Diante de todas as incertezas quanto à abrangência e duração da pandemia e seu efeitos sociais e econômicos, a instituição que precisa se adequar de forma mais rápida é a do Estado em suas diversas dimensões. Sejam essas as que representam a divisão entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário; ou aquelas que foram construídas para pensar e agir em nome do bem comum, em escala mundial, nacional, estadual ou local.
O lado que mais rapidamente precisa responder às emergências crescentes que afetam a todas as demais instituições é o do poder Executivo. No caso brasileiro, o máximo que se pode desejar do ocupante da cadeira da presidência da República é que ele atrapalhe menos.
Disso deriva uma responsabilidade maior dos governantes em nível estadual e municipal. Governadores e prefeitos precisam ir além da montagem de gabinetes de crise. Aquelas pelas quais Estados e/ou municípios passaram no passado tiveram alcance e abrangência bem distintas do que impõe a Covid-19 e seus desdobramentos sociais e econômicos no presente e no curto, médio e longo prazos.
A complexidade nova trazida pela pandemia e seus desdobramentos exige uma institucionalidade nova. As estruturas de governo em vigor foram pensadas para responder a realidades distintas das que se afiguram hoje e que perdurarão por prazo e intensidade impossíveis de serem previstas.
A legitimidade do voto popular que levou governadores e prefeitos ao exercício do poder precisa agora ser ampliada e melhor qualificada. Ampliação e qualificação que vai ocorrer quando mandatários em nível estadual e municipal apoiarem suas decisões em aconselhamento junto à sociedade. Conselhos de pessoas competentes para pensar e propor ações para além do segmento social e econômico onde se inserem mais diretamente.
Competência que precisa ser qualificada pela disponibilidade para fazer o difícil exercício do escutar outras interpretações e outras maneiras de estar no mundo. Gente de fora da máquina administrativa que consiga subsidiar o governante com evidências e análises com o objetivo de instrumentalizá-lo para ações necessárias em tempos de mudanças rápidas e mutantes.
Mudanças que afetarão a todos, exceção aos protegidos de sempre, principalmente os que continuam sob as benesses governamentais de apoio ao sistema financeiro. Já se sabe, entretanto, que no curto, médio e longo prazos os que sofrerão maior impacto negativo da pandemia e de seus desdobramentos serão os há muito são desconsiderados por políticas públicas consistentes. Nas cidades, moradores de rua e os que habitam as favelas; no campo, nativos e quilombolas. Na dimensão econômica, os desempregados, uberizados, micro, pequenas e médias empresas rurais e urbanas.
Se aproximar dessa realidade complexa exige mais do que podem oferecer estruturas de gestão existentes. Daí a importância de governantes se aconselharem com quem fora da máquina governamental. Aconselhamento que se dê em ambiente onde convivam o diverso e o antagônico. Diversidade e antagonismo que reflita a complexidade social, política e econômica da crise. Aconselhamento que evite a repetição de erros cometidos no passado ou em outros Estados/municípios; que ouse fazer diferente ainda que isso implique em riscos de equívocos.
Menos mau cometer erros novos do que insistir nos de sempre, ainda que cometidos com as melhores intenções.