Em junho de 2020, estamos diante de crise de saúde pública, econômica, social e política ampliada e aprofundada pela pandemia da Covid-19. Essas e outras dimensões da crise com a qual estamos convivendo já estavam aí antes do coronavírus ser objeto de noticiário pela grande mídia no mundo inteiro.
O sistema de saúde pública já demonstrava esgotamento mundo afora em razão do descaso para com o sofrimento humano. Fosse em países mais pobres com baixa cobertura jornalística em um mundo ainda euro-centrado, ou em países ricos e intermediários.
Nos Estados Unidos, maior potência militar e econômica do Ocidente, o apego ao individualismo exacerbado fez com que, antes da Covid-19, 44 milhões de pessoas estivessem fora do sistema de seguro saúde e para outras 38 milhões a cobertura que tinham fosse inadequada. O sistema de saúde britânico montado de forma exemplar no pós-Segunda Guerra vem sofrendo desde os tempos de Tatcher, tudo em nome dos pressupostos neoliberais que endeusam o mercado.
No Brasil, o bem engendrado sistema único de saúde que resultou do reconhecimento constitucional que saúde é uma direito individual e uma obrigação do Estado, há muito é objeto de deliberada deslegitimação por notícias enviesadas veiculadas na grande mídia brasileira. Deslegitimação deliberada que facilitou politicamente o congelamento de gastos em saúde, dentre outros, promovido logo após o golpe de 2016.
Por caminhos diversos, o que já acontecia com a saúde pública nos EUA, na Grã-Bretanha e no Brasil foi ampliado e aprofundado com a pandemia da Covid-19. Desnudaram-se mazelas sociais que repercutem na forma como pessoas, dependendo de sua cor e classe econômica, são mais afetadas pelas consequências nefastas do vírus. Lá e aqui morrem mais negros, latinos, migrantes e moradores de bairros mais pobres, de favelas e ruas.
O sistema econômico exageradamente centrado na apropriação de riquezas socialmente geradas por poucos que controlam a financeirização mundializada, há algum tempo dá sinais de esgotamento. Sua sobrevivência é resultado da complacência e defesa veemente por parte de governantes como Trump, Boris Johnson e, no Brasil, pela equipe comandada por Guedes.
A opção preferencial desses e outros governos pelo capital improdutivo há muito estrangula quem produz bens, serviços e conhecimento e mais gera empregos – as micro, pequenas e medias empresas (MPMEs) no campo e na cidade. Opção e estrangulamento que já vinham sendo denunciados até mesmo por analistas conservadores como ampliadores dos riscos de colapso econômico, social e ambiental.
No Brasil, as evidências do esgarçamento econômico, social e ambiental se aceleraram desde 2016. Na economia, MPMEs fechadas; precarização no mundo do trabalho com crescente uberização e desemprego. Socialmente, bairros pobres, favelas e ruas abrigando cada vez mais gente pela falta de políticas públicas voltadas para excluídos pela economia e por estruturas historicamente construídas – inclusive nativos e quilombolas. Tudo agravado pelo ataque deliberado de grupos reacionários, sob a proteção de governantes, a riquezas naturais do país, onde a Amazônia lamentavelmente há muito deixou de ser exceção.
A pandemia contribuiu para que essas e outras mazelas sejam desnudadas por parte considerável da mídia e das redes sociais. O ver fica a cada dia mais acessível a quem quiser enxergar. O noticiário a todo momento; os compartilhamentos nas redes sociais; o observar de ruas, bairros podem servir como fontes de indignação crescente a cada momento.
Indignação que se amplia pela falta de pudor explícito que pode ser contemplado em tempo real em falas e ações de governantes como Trump, Johnson. Lamentavelmente, nisso e em outras aberrações, o governo brasileiro superou até mesmo o que há de pior na política mundial. Superação que pode ser constatada por quem tiver estômago para acompanhar os registros da reunião do alto escalão do governo federal em 22 de abril de 2020.