Criação e expansão das linhas de crédito tornam-se um dispositivo de sustentação das atividades das empresasCrédito: Pixabay
Nesse momento, o mundo, o Brasil e o Espírito Santo estão diante de duas crises que já se iniciaram: a humanitária e a econômica. A pandemia do novo coronavírus, patógeno que provoca a Covid-19, e as medidas imprescindíveis para salvar vidas, provocarão a desaceleração da economia. A saúde da população é a prioridade e a recuperação econômica deve ser planejada para garantir renda aos brasileiros e, posteriormente, a geração de empregos.
O gasto público mostra-se como a solução para aumentar a capacidade de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e cuidar da população – prioridade máxima – e fazer a manutenção dos empregos, salários e investimentos do setor privado, auxiliando a acelerar a recuperação econômica após a atual paralisação da economia global.
O governo federal está propondo medidas que permitirão a transferência de renda direta à população (a renda básica perene é a melhor opção) e o repasse de recursos aos Estados, já tendo afirmado que concederá inicialmente cerca de R$ 85 bilhões para investimentos na saúde e sustentação das economias regionais.
Importante destacar que a transferência direta de renda para a população é a medida mais urgente a ser tomada pelo governo federal. Aqui, vou me ater às medidas que podem ser tomadas pelo governo capixaba para estimular a economia.
Como já propus em análises anteriores que abordaram a necessidade de um plano para o desenvolvimento do Espírito Santo, a priorização dos setores econômicos tradicionais do estado é uma das medidas que podem acelerar o crescimento econômico e que, agora, podem servir de alavanca para a recuperação em momento de crise. Essas indústrias tradicionais (rochas ornamentais, cafeicultura, agricultura, indústria alimentícia) possuem cadeias produtivas consolidadas e bem desenvolvidas por terem as suas atividades realizadas há décadas em diversos municípios do Estado e por pertencerem a segmentos que produzem bens essenciais.
A facilitação de crédito às empresas desses setores, o apoio à reestruturação da sua produção (absorção de tecnologias digitais) e a busca por novos mercados poderão fortalecer essas atividades e a sua expansão. Os bancos públicos do ES, o Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes) e o Banco do Estado do Espírito Santo (Banestes) podem ser utilizados para financiar investimentos desses segmentos em tecnologia e aumento da produção.
A criação e expansão das linhas de crédito tornam-se um dispositivo de sustentação das atividades das empresas e, consequentemente, dos empregos. Parte dos recursos federais a serem recebidos podem beneficiar esses setores por meio de programas de oferta de capital às suas empresas e investimentos em ciência e tecnologia.
Outra medida é criar um programa amplo para tornar as empresas capixabas exportadoras, com capacidade de vender seus produtos a outros Estados e países, não ficando restritas ao mercado interno. O auxílio à identificação de mercados com propensos clientes e o apoio às empresas para que se tornem capacitadas para exportar é a tarefa que pode ser feita pelo governo capixaba utilizando também os recursos federais.
Os investimentos em infraestrutura, com a criação de parcerias público-privadas tornam-se nesse momento uma das formas mais eficientes de alavancar a economia estadual e contribuir para a elevação da competitividade do Espírito Santo, atraindo mais investimentos, criando um círculo de desenvolvimento autoalimentado.
Nesse sentido, o gasto público conjunto com investimentos de empresas privadas em projetos estruturantes (estradas, pontes, novos modais logísticos, obras urbanas, centros de tecnologia) é uma solução para gerar demanda para o setor produtivo e criar empregos para os capixabas.
A Região Metropolitana de Vitória (perímetro que concentra a população capixaba) é uma área urbana que necessita de inúmeros investimentos em mobilidade (metrô, novas vias rodoviárias, túneis, infraestrutura para tecnologias digitais) e saneamento (infraestrutura para esgoto e distribuição de água), podendo receber parte dos recursos federais para a execução desses projetos.
Recapitulando, as medidas que podem ser adotadas para permitir a rápida recuperação econômica no ES por meio do gasto público com recursos federais e estaduais são: 1) apoio aos setores tradicionais; 2) auxílio para tornar as empresas capixabas exportadoras; 3) investimento amplo em todos os tipos de infraestrutura.
Essas medidas podem servir para a busca de novos mercados para os produtos capixabas, aumento da competitividade do Estado e avanços tecnológicos sustentados.
Diante da grande crise provocada pela pandemia, mas que pode ser mitigada, é extremamente urgente que o governo estadual formule programas que implementem mecanismos que injetem os recursos federais a serem recebidos na economia do Espírito Santo, possibilitando a sustentação do crescimento e o bem-estar da população.
Aldren Vernersbach
A economia capixaba tem espaço aqui, com textos do economista, pesquisador e consultor, vinculado ao Instituto de Economia da UFRJ, membro do GEE, economista-membro da International Association for Energy Economics (IAEE) e do Institute for New Economic Thinking (INET)