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É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras

Resiliência em tempos que duram

São muitos os que se tornam reféns de notícias e pregações sem qualquer embasamento, mas que são prenhes no uso de retórica que acabam por invadir mentes e corações desavisados

Publicado em 17/12/2020 às 05h00
Perdas há muito deixaram de ser números de boletins da pandemia
Perdas há muito deixaram de ser números de boletins da pandemia . Crédito: Freepik

Se resiliência for a capacidade de se adaptar às mudanças, esses tempos que duram sem parar exigem capacidades redobradas. Capacidades para muito além da formação familiar, escolar e religiosa. Nenhuma delas forjou pessoas para enfrentar a finitude que se reconfigura a cada momento nesses tempos de pandemia e de pandemônio.

Tempos de pandemia que desnudam os limites de respostas da ciência diante das urgências que são impostas por poucos que muito ganham com a sensação de insegurança da maioria. Ganham com valorização de ativos improdutivos; com subsídios de governos dóceis a pressões dos poderosos de sempre; com especulações com estoques de alimentos, de remédios e de vacinas. São poucos os que se beneficiam do jogo especulativo que alimenta os desejos de acumulação do capital improdutivo.

Ganham com o sentimento de insegurança fomentada por redes sociais; pelo noticiário sensacionalista que permeia boa parte das emissoras de TV e rádio e das ditas grandes revistas e jornais; e por púlpitos onde estrelam falsos profetas. São muitos os que se tornam reféns de notícias e pregações sem qualquer embasamento em evidências ou doutrinas, mas que são prenhes no uso de retórica que acabam por invadir mentes e corações desavisados.

Daí à aceitação de milagreiros de remédios para o corpo e unguentos para a alma é só um pulo. Aceitação que paralisa diante da "constatação" de que é assim mesmo.

Na contramão disso tudo fica quem, com base em saberes milenares ou naqueles que são trazidos pela ciência contemporânea, se recusam a aceitar o cinismo do é assim mesmo e suas derivadas que leva à incorporação de equívocos nas rotinas diárias do pandemônio que caracteriza o cotidiano. Recusa que muitas vezes leva à sensação de quem dá murro em ponto de faca. Como contemplar utopias diante de tanta distopia?

Um possível caminho está na aceitação de gestos cheios de humanidade que chegam por diversos caminhos. Gestos inesperados para os quais é preciso atenção pois é grande o risco deles se perderem por falta de ouvidos que escutem; olhos que vejam; coração que palpita.

Humanidade plena como a que chegou por zap em dia chuvoso na semana passada: "Bom dia, Arlindo, quanto tempo. Saudades, ainda mais em um dia cinzento."

Veio de um amigo generoso e querido. Generosidade que acalenta e me permito tornar pública pois creio que pode inspirar outros tocarem corações tão machucados por tantas perdas.

Perdas que há muito deixaram de ser números de boletins da pandemia e de manchetes dos noticiários. A cada momento chegam mais perto. Já foram de conhecidos de um conhecido. Depois de parentes de um amigo. E cada vez mais se tornam de um amigo, de um filho, de uma mãe; de cada um de nós.

Por elas e eles a indignação plena e a resiliência que precisa alimentar todos que nos queremos humanos íntegros.

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