Merece destaque o papel desempenhado pela cultura nas mudanças estruturais ocorridas na formação socioeconômica capixaba nos últimos cinquenta anos. Parcela desse destaque é devido ao protagonismo exercido pela Fundação Cultural do Espírito Santo, tanto na recuperação do Teatro Carlos Gomes como principal sala de espetáculos no Estado, quanto pelo estabelecimento de uma canal de televisão eminentemente cultural.
A profissionalização dos músicos da Orquestra Sinfônica Estadual; a ampliação de espaços voltados para exposições de artes plásticas; o patrocínio de programas de resgate do patrimônio histórico e artístico; o apoio a atividades ligadas ao audiovisual; o incentivo a prefeituras com o objetivo de valorizar especificidades da diversidade cultural no Estado; e tantos outros estimularam e fortaleceram a constituição de alicerces para a constituição de uma economia da cultura.
Segundo a Unesco, “... economia da cultura engloba atividades relacionadas [...] à criação, produção, e comercialização de conteúdos que são intangíveis e culturais em sua natureza. Estes conteúdos [...] são intensivos em trabalho e conhecimento, estimulam a criatividade e incentivam a inovação dos processos de produção e comercialização”. Uma vez explicitado o apoio institucional de órgãos de governo à expansão de atividades culturais, ocorreu no Estado o surgimento de grupos que ampliaram e diversificaram a produção e o acesso à música, à literatura, ao teatro, à dança, às artes plásticas e áudio visuais, dentre outros.
O apoio à cultura institucionalizado pelo governo estadual – e em alguns casos por prefeituras – foi suplementado por iniciativas da Universidade e do Instituto Federal no Espírito Santo, tanto aquelas voltadas para a formação em áreas ligadas às artes quanto as de difusão cultural. Os resultados estão aí para quem quiser apreciar. Grupos locais que se destacam nacionalmente e que encantam plateias e pessoas aqui e acolá; oportunidades ampliadas para que pessoas possam exercer seus talentos de forma profissional; valorização de singularidades culturais da formação capixaba.
Destaques, ampliações e valorização que têm se configurado como fundamentais nesses tempos de pandemia e pandemônio. Mais do que os números que indicam a importância de aspectos econômicos da cultura – geração de emprego e renda, principalmente –, o convívio com a Covid 19 demonstrou o quão fundamental é a cultura para aliviar dores de todo tipo de perdas – de vidas, de liberdade, de esperança, de rumo. E como faz bem a todos o acesso a serviços culturais, ainda que à distância e intermediados pelas tecnologias da informação e das comunicações.
Bem-estar que deve impulsionar mais iniciativas dos governos estadual e municipais voltadas para a cultura. Tanto em instalações – com destaque para o término das obras do Cais das Artes, quanto em apoio financeiro a grupos espalhados por todo o Estado que valorizam as artes em todas as suas dimensões e diversidade e que facilitam o acesso a bens e serviços culturais a amplas camadas da população.
Os ativos culturais existentes são necessários - ainda que sem serem suficientes, para a dinamização no Espírito Santo da economia criativa. Baseada em atividades caracterizadas pela criatividade, habilidade e talento, a economia criativa já demonstrou onde foi fomentada e apoiada potencial para criação de riqueza e trabalho através da geração de ideias, produtos e serviços. Tem como um de seus instrumentos básicos serviços baseados em conhecimento (design, marketing, logística, tecnologias da informação e das comunicações) para os quais é fundamental o acesso universal à internet.
Acesso universal que depende de políticas públicas de inclusão digital. Isso implica em criar condições através de políticas públicas explícitas para que a maioria da população tenha serviços de internet e aparelhos a custos compatíveis. Como ficou evidente desde o início da Covid-19, a exclusão digital no Espírito Santo vai muito além dos excluídos históricos e atinge também famílias de classe média.
Dados os altos retornos econômicos e sociais de recursos aplicados nas economias da cultura e criativa é desejável que gestores públicos tanto no âmbito estadual quando dos municípios entendam que investimentos nessas áreas são cruciais para o Espírito Santo entrar em um novo normal. Um novo normal com uma economia dinâmica e um tecido social menos esgarçado. Novos tempos desejados e desejáveis.