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É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras

Vacina: mais do que produto, um longo processo

Historicamente, esse processo começou há mais de cem anos. Mas como diz o ditado, ‘o que leva tempo para construir pode ser destruído muito rapidamente’

Publicado em 28/01/2021 às 02h00
Atualizado em 28/01/2021 às 02h01
Vacina de Oxford
A vacina de Oxford chegou atrasada ao Brasil. Crédito: Carlos Alberto Silva

Cabe a quem deseja que a vacina contra a Covid-19 esteja disponível para toda a população brasileira o mais rapidamente possível, reconhecer que a vacinação universal só acontecerá graças a um longo processo que vai muito além da produção da vacina em si e de sua aplicação de forma universal. Historicamente, esse processo começou há mais de cem anos com a construção dos alicerces do que é hoje: primeiro, o Instituto Butantan, em 1899; segundo, a Fundação Oswaldo Cruz, em 1900; e terceiro, o Instituto Vital Brasil, em 1919.

Longo processo para que o Brasil se capacitasse a gerar conhecimentos nessas e outras instituições de pesquisa voltadas para o combate de doenças e o estabelecimento de políticas de saúde. A formação de pessoas capacitadas; a montagem da necessária infraestrutura de laboratórios; o reconhecimento internacional da qualidade e pertinência da pesquisa brasileira em diversas dimensões da saúde, dentre outros fatores, são resultado de muito trabalho de muita gente ao longo de muito tempo.

Colocar o conhecimento gerado por essas pessoas nesses laboratórios a serviço da população também é resultado de muita mobilização política. Destaque para a que resultou no estabelecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro. Referência mundial, a criação do SUS é datada pela Constituição de 1988, mas é fruto de intenso debate entre quem desejava um sistema universal de qualidade e forças tradicionais que preferiam fazer mudanças apenas pontuais no que existia no país.

Debate que resultou em solução consensuada, fruto da capacidade de negociação de parlamentares constituintes como Sérgio Arouca e Eduardo Jorge e da mobilização da sociedade em favor de um direito fundamental das pessoas – o acesso a serviços de saúde, e o reconhecimento de que é obrigação do Estado assegurar esse acesso de forma universal.

Apesar do consenso sobre o que constar da Carta Magna brasileira, transformar o constitucional em políticas públicas em favor da maioria da população até os dias de hoje faz parte do enfrentamento entre forças progressistas e aquelas que reagem a qualquer mudança que resulte no bem comum. Enfrentamento explícito como o que resultou no congelamento de gastos sociais em 2016 com o objetivo de enfraquecer muitas das conquistas em favor da universalização de direitos no Brasil.

Mais sutil, e por isso muito mais efetivo, foi a utilização dos grandes veículos de comunicação no país com o objetivo de deslegitimar a ação dos serviços diretamente prestados pelo SUS à população. E mais, campanhas sistemáticas contra tudo o que se referisse a pesquisas e estudos voltadas para o aperfeiçoamento do sistema, fosse através da produção de conhecimento ou de produtos, como medicamentos e vacinas.

Se do lado da pesquisa e dos serviços públicos de saúde foram sensíveis as mudanças para pior após o golpe de 2016 e ainda mais agravadas após o pandemônio que se implantou no governo federal após 2019, do lado das relações exteriores a condução política do governos tem sido igualmente desastrosa. E o desastre ficou mais evidente e caótico na questão das vacinas contra Covid- 19.

De país líder nas articulações com Rússia, Índia, China e África do Sul para a criação de um bloco que funcionasse com agenda própria para muito além das instituições de Bretton Woods, o Brasil retrocedeu desde 2016 a uma postura subserviente aos interesses estadunidenses que desmerece o muito que a diplomacia brasileira conquistou ao longo do tempo. Os vexames só têm aumentado e o país agora encontra-se na posição de falta de interlocutor com as principais lideranças mundiais.

Tão ferrenha foi a adesão acrítica do presidente e seu chanceler ao discurso raso do ex-presidente Trump, que agora nem junto aos EEUU, sob nova administração, o Brasil consegue se apoiar. Os discursos inconsequentes por parte de diversos ministros de estado, refletindo o pensamento do presidente brasileiro, conseguiram gerar animosidade com países da importância da China e da Índia que tanto têm a contribuir na produção de vacinas e de insumos necessários para que as mesmas possam ser produzidas no Brasil.

Uma vez mais se comprova o ditado popular ‘o que leva tempo para construir pode ser destruído muito rapidamente’. Felizmente houve e continua havendo resistência de muitos que atuam em todo o processo de produção de conhecimentos e medicamentos voltados para a saúde pública no Brasil. Ainda que enfraquecida por toda a retórica irresponsável de quem hoje está no poder no Brasil com relação à China e à Índia, é esperado que esses países reajam mais com vistas ao parceiro que o país já foi e poderá ser do que aos discursos pobres da diplomacia brasileira desde 2016.

Que tudo o que o Brasil conquistou nos últimos 100 anos no campo do conhecimento voltado para a saúde e de competências em negociações internacionais sirva para que o produto vacina contra a Covid-19 chegue mais rápido para atender a toda a população. E que o terraplanismo dos radicais de direita seja superado pelo bom senso de lideranças em todos os espectros da sociedade brasileira.

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