Diante do recrudescimento da pandemia do coronavírus, o governo do Espírito Santo anunciou, na última terça-feira (16), um pacote de novas medidas restritivas no afã de evitar o colapso dos hospitais públicos, filantrópicos e particulares, numa tentativa louvável de resguardar a vida dos capixabas.
Além disso, deve-se sublinhar a coragem e responsabilidade do governo local em tomar tais medidas, notadamente num momento em que as vozes do negacionismo tentam obnubilar as informações que chegam à população. Aliás, antes mesmo da oficialização das novas medidas, pessoas imbuídas por ódio foram para frente da casa da mãe do governador, uma pessoa idosa, para perturbar seu sossego.
Parcela da culpa pelo alastramento do coronavírus no Brasil e no Espírito Santo deve-se à falta de ações concretas e de liderança por parte do governo federal, que se comporta como um dos maiores aliados do vírus. Desde o início da pandemia, o governo federal tenta exaustivamente e contra a realidade dos fatos dissuadir os brasileiros de que o coronavírus é inofensivo, promoveu aglomerações, incentivou o desrespeito às regras de isolamento social, zombou do uso de máscaras, difundiu práticas terapêuticas mirabolantes, atacou a ciência e ousou colocar em dúvida a eficácia e credibilidade das vacinas aprovadas.
Porém, parte da população também contribuiu e permanece contribuindo para chegarmos a este momento caótico, em que o Brasil já se aproxima dos 300 mil mortos e o Espírito Santo já contabiliza quase 7 mil vidas interrompidas. Alguns, desde o início da pandemia, sequer esboçavam uma preocupação real com o coronavírus e, por isso, não se cuidavam, quer seja por desacreditar da gravidade da doença ou por acreditar em “tratamentos milagrosos” à base de vermífugos.
Outros, ao longo do tempo, passaram a ver a doença e as mortes crescentes com naturalidade desumana, deixaram seu egoísmo falar mais alto e não abriram mão de festas, confraternizações e toda sorte de aglomeração. Infelizmente, se boa parte da população não tem consciência ou não quer cumprir seu dever social e moral de adotar as regras de segurança sanitária contra a Covid-19, cabe ao Estado, que detém o império da força cogente, adotar as medidas cabíveis.
Por mais importante que seja a preservação de empregos e da propriedade privada (direitos legítimos, diga-se de passagem), na balança de tomada de decisões, o direito à saúde deve sempre ser preponderante. Sem o direito à saúde não faria sentido declarar quaisquer outros direitos, já que, para exercê-los, o cidadão precisa estar vivo! Inclusive, os dados oficiais apontam que os postos de emprego que foram perdidos em 2020, aos poucos, foram sendo reabertos. De igual maneira, cresceu o número de pessoas jurídicas criadas em meio à pandemia. Mas, lado outro, as vidas perdidas jamais serão recuperadas.
Por isso, neste momento em que o número de óbitos atinge tristes recordes diários e em que quase todo o Brasil está à beira do colapso dos serviços de saúde, o governo do Espírito Santo não poderia quedar-se inerte ou ceder à pressão dos asseclas do negacionismo, mormente porque a ocupação dos leitos de UTI está chegando a um limite preocupante.
Apesar de a quarentena decretada pelo governo estadual ser mais branda que um lockdown, já que diversos setores da economia permaneceram funcionando com poucas restrições, trata-se de medida bem-vinda e que contribuirá para preservar vidas.
No entanto, as regras estabelecidas precisam ser cumpridas com rigor e os governos estadual e local devem realizar fiscalizações constantes e efetivas. À população, cabe esperar o básico: evitar saídas de casa desnecessárias, jamais participar de aglomerações ou promover eventos sociais, sempre usar máscara de proteção facial e reforçar os cuidados de higiene pessoal.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta