Mais uma vez o capixaba sofreu com a falta de ônibus na Grande Vitória. Na segunda-feira (8), o Sindicato dos Rodoviários realizou novo protesto surpresa contra a retirada dos cobradores de dentro dos ônibus. Os cobradores foram afastados de suas funções desde maio de 2020, supostamente para evitar a propagação do coronavírus.
Apesar de os cobradores estarem, temporariamente, recebendo seus salários (em parte pagos pelo governo), ao que tudo indica eles se preocupam com a falta de segurança jurídica e a possibilidade de, após o prazo de estabilidade assegurado pelo governo, serem demitidos sem a efetiva chance de reinserção em outros cargos nas empresas para as quais trabalham atualmente (lembrando que algumas dessas empresas já alegam dificuldades financeiras). Porém, o modo como o governo tem conduzido a questão ainda não gera confiança nos trabalhadores. Falta um compromisso público e formal.
Mesmo porque, antes da pandemia, já havia movimentos do governo do Espírito Santo e dos municípios que apontavam o intento de retirar os cobradores dos ônibus, em especial após a sequência de inovações no sistema de bilhetagem eletrônica, que permite passar a roleta apenas com a aproximação de um cartão. A propósito, essa já é a realidade em inúmeras cidades.
Atualmente, a inteligência artificial (IA) não compete com os humanos apenas em questão de habilidades físicas, desenvolveu-se a ponto de assumir habilidades cognitivas até então restritas aos humanos. Por isso, como exemplificam os protestos dos cobradores de ônibus, talvez nos próximos tempos as manifestações sejam feitas não contra uma elite econômica que explora os trabalhadores, mas contra a elite econômica que já não precisa deles.
Diante dos sucessivos avanços da IA e das novas tecnologias, seria possível ou viável fazer algo para impedir a perda de empregos? Ou seria melhor preparar os trabalhadores para assumirem novas funções? Em princípio, tentar impedir por completo a perda de empregos já existentes parece ser uma tarefa árdua e fadada ao fracasso, mormente porque a IA, se bem utilizada, é capaz de contribuir com a sociedade.
Ao que tudo indica, assim como a exploração deve ser combatida, deve-se, também, evitar que trabalhadores caiam na irrelevância por obsolescência. É mais difícil combater a irrelevância que a exploração! Se não fosse a adesão dos motoristas de ônibus às manifestações, será que os cobradores, por si só, teriam tanta visibilidade pública em suas demandas?
Os governos e setor produtivo devem se preocupar em subsidiar um setor de educação perene que permita ao trabalhador se capacitar para novos ofícios. Nos períodos de transição, os governos precisam assegurar alguma espécie de renda básica para contribuir com o sustento dos mais vulneráveis. Ações públicas voltadas à promoção do bem-estar social são necessárias em todos os países, inclusive naqueles em que predomina a narrativa liberal: quem passa fome não pode ser considerado uma pessoa livre.
Nos países escandinavos, seguindo o lema “proteger trabalhadores, não empregos”, os governos têm implantado pioneiramente políticas públicas preocupadas com o trabalhador e suas famílias. Na Suécia, o “sistema de transição” foi implementado para desenvolver as habilidades do trabalhador recém-demitido, preparando-o para assumir um novo posto de trabalho que, muitas vezes, acaba sendo melhor que o antigo. Segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 90% dos trabalhadores suecos demitidos conseguem ser reinseridos no mercado de trabalho em até um ano.
O desaparecimento de alguns empregos pode ser inevitável, como aconteceu com os telefonistas, operadores de telégrafos e de mimeógrafos, linotipistas e talvez seja o caso dos cobradores de ônibus. Por isso, governos e o setor produtivo devem se preocupar em proteger os trabalhadores, não os empregos. Os empregos são voláteis, mas os trabalhadores podem e devem ser treinados para assumir novos postos de trabalho.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta