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Por que medidas anunciadas por Casagrande não significam lockdown no ES

A partir desta quinta-feira (18), o Espírito Santo entra em uma quarentena de 14 dias, com medidas mais restritivas para tentar conter o avanço do coronavírus

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 16/03/2021 às 19h50
Avenidas completamente vazias neste Natal
Recomendação é que pessoas fiquem em casa durante 14 dias para evitar transmissão do coronavírus. Crédito: Fernando Madeira

O governador Renato Casagrande (PSB) anunciou medidas mais restritivas de isolamento social para tentar conter o avanço do coronavírus sobre o Espírito Santo, que valem a partir desta quinta-feira (18). As ações, que possuem duração de 14 dias e serão válidas até 31 de março, foram classificadas pelo governador como uma quarentena.

Durante a coletiva de imprensa virtual realizada nesta terça-feira (16) para divulgar as medidas adotadas pelo Governo do Estado, Casagrande ressaltou que o conjunto de ações trata-se de uma quarentena e não um lockdown, uma vez que não haverá restrição da circulação das pessoas.

Renato Casagrande

Governador do Espírito Santo

"É quarentena porque não estamos restringindo a circulação das pessoas. Não é um lockdown. Estamos pedindo uma restrição da mobilidade"

Dentre os principais motivos para a adoção desse período de restrições maiores, Casagrande citou a taxa de ocupação de leitos de UTI para tratamento de pacientes que contraíram a Covid-19. Segundo o Painel Ocupação de Leitos, ferramenta da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), 91,05% das vagas de tratamento intensivo no Estado estão ocupadas. Um percentual acima de 90% já havia sido delimitado pelo governo estadual como gatilho para a adoção de medidas mais restritivas e o lockdown chegou a ser ventilado.

"Estamos com um número de pessoas internadas muito grande. Vamos chegar a 900 leitos de UTI até o final de abril, mas chegamos hoje à 91% de ocupação dos leitos de UTI. Nunca tínhamos ultrapassado os 90%. Pela primeira vez disparou o gatilho. Temos que adotar medidas no Estado todo: quarentena de 14 dias", afirmou o governador.

AFINAL, QUAL A DIFERENÇA ENTRE LOCKDOWN E QUARENTENA?

Para explicar melhor a diferença entre lockdown e quarentena, a médica infectologista Rubia Miossi utiliza três conceitos que vêm sendo oficialmente adotados. Eles são, em ordem de menor para maior isolamento imposto: distanciamento social seletivo, distanciamento social ampliado (quarentena) e bloqueio total, ou lockdown em inglês.

  • Distanciamento social seletivo: ficam em casa os grupos sociais com maior risco de adoecimento grave, com maior risco de morte, bem como as pessoas que tiveram exames positivos para a Covid-19. Estas pessoas ficam em isolamento domiciliar por 14 dias, caso não precisem ser internadas.

O QUE O DISTANCIAMENTO SELETIVO EXIGE

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    Testes

    Para que aconteça o distanciamento seletivo, a especialista afirma que é preciso haver número de testes suficientes para verificar o máximo de pessoas com sintomas. "Sabemos que ainda não temos essa disponibilidade", disse.

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    Casas adequadas

    Outro aspecto a ser considerado é que a casa onde estas pessoas estejam seja adequada, por exemplo com quartos separados. "Não é a realidade social brasileira, já que há muitas residências pequenas com muitas pessoas. A situação brasileira complica a aplicação deste tipo de distanciamento, que também já foi chamado de isolamento vertical. O nome mais adequado é distanciamento social seletivo", recomendou.

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    Seguir à risca

    Também é necessário que as pessoas sigam à risca. "As pessoas têm muita dificuldade de cumprir isso, então acaba sendo um mecanismo muito frágil para controlar a doença. O Reino Unido, por exemplo, adotou por um tempo e não deu certo, explodiu o número de casos", relatou.

Hospital Jayme Santos Neves, na Serra, recebe trinta e seis pacientes com Covid-19 vindos de Manaus
Área da saúde é um dos serviços considerados essenciais. Crédito: Fernando Madeira
  • Distanciamento social ampliado: é o que mais se aproxima da "quarentena" que será implementada no Espírito Santo a partir desta quinta-feira (18). A recomendação é que todas as pessoas fiquem em casa, não só quem tenha testado positivo para a doença. Só saem de casa quem precisa trabalhar nas áreas consideradas essenciais.

 O QUE O DISTANCIAMENTO AMPLIADO (QUARENTENA) EXIGE

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    Cumprimento total

    Também pressupõe o cumprimento. "Este método é mais efetivo, já que reduz a circulação de pessoas e consequentemente o contato e o contágio. O distanciamento social ampliado diminui a velocidade da propagação da doença. O maior problema desta modalidade é o fator econômico, que vem sendo tão debatido", explicou.

Farmácias populares podem entregar em domicílio, decide TRF
Farmácias podem permanecer abertas mesmo durante lockdown. Crédito: Elza Fiúza | Agência Brasil
  • Bloqueio total ou lockdown: consiste em fechar tudo, inclusive serviços essenciais, mantendo abertos apenas farmácias, supermercados e hospitais. Há, neste caso, necessidade de autorização, muitas vezes por parte das autoridades policiais, para sair de casa. "É como em um toque de recolher. Já é bem mais extremo, para quando o número de casos está descontrolado e o sistema de saúde já não dá conta. Serve para tentar parar a evolução da pandemia", afirmou.

"LOCKDOWN NÃO É EFETIVO EM CURTO PRAZO"

Apesar de mais extremo, o bloqueio total não se apresenta como melhor opção em curto prazo, segundo a especialista Rubia Miossi. Além da situação econômica, que é bastante atingida, os primeiros resultados do lockdown aparecem a partir da terceira semana de aplicação. "As pessoas adoecem e acabam contaminando quem está com elas no domicílio", relatou.

A proposta de bloqueio funcionaria adequadamente caso partisse de um distanciamento ampliado em que o número de casos confirmados da Covid-19 já tivesse esgotado o sistema de saúde. "Neste caso o bloqueio funcionaria, porque as pessoas já estariam em casa mesmo", ressaltou a médica.

A IMPORTÂNCIA DAS DIVERSAS ÁREAS

De acordo com Miossi, o mais importante é saber que nenhum dos três conceitos precisa seguir a sequência para ser aplicado. Existem lugares que, por exemplo, não necessitam de lockdown, que tenham sistema de saúde muito bem equipado. "Acredito que nenhum país tenha essa condição, acabou que todos acabaram correndo atrás do prejuízo depois", opinou.

Na visão da médica, não é apenas uma autoridade que define a medida mais eficaz a ser tomada, mas devem ser levadas em consideração as várias áreas de conhecimento. "Não é uma decisão que o governador toma sozinho, ele deve ser assessorado por experts de várias áreas", disse.

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