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"O ciúme é romantizado pela sociedade e disfarça a violência", diz ativista

A escritora e ativista Michele Pin participou da transmissão ao vivo do projeto Todas Elas, junto com  a advogada Gizelly Bicalho e a psicanalista Claudia Murta. Elas alertaram para as atitudes que podem indicar um relacionamento abusivo e perigoso

Publicado em 09/12/2020 às 20h45
Atualizado em 09/12/2020 às 20h45
Live do Todas Elas. A jornalista de A Gazeta Elis Campos (à esquerda) conversa como a escritora Micheli Pin
Live do Todas Elas: a jornalista de A Gazeta Elis Campos (à esquerda) conversa como a escritora Michele Pin. Crédito: Reprodução

"O ciúme é muito romantizado pela sociedade". O lembrete é da escritora e ativista Michele Pin. Ela relata que esse sentimento é um grande sinal de violência contra a mulher e os agressores usam dele como desculpa para agredirem física ou verbalmente as suas parceiras. No caso dela, o ex-namorado chegou a invadir o e-mail e a rasgar e deletar fotos antigas que ela tinha.

Micheli participou, na tarde desta quarta-feira (9), da transmissão ao vivo do projeto Todas Elas  (assista no vídeo abaixo) A advogada e ex-BBB Gizelly Bicalho e a psicanalista Claudia Murta também participaram.

O debate tinha como tema "Relacionamentos Abusivos: como quebrar o ciclo de violência" e a mediação do encontro foi realizada pela jornalista Elis Carvalho, que é repórter da editoria de Cotidiano de A Gazeta.

Durante a live, Michele, que é autora do livro "Desafio do amor-próprio",  compartilhou um pouco da história do seu relacionamento, que quase terminou em tragédia. Ela conta que, durante o tempo que ficou com o ex, era tudo muito intenso.

Michele Pin

escritora e ativista

"Eu pensava que isso, o ciúme e a intensidade, eram os mais importantes em um relacionamento saudável. Aí começaram as ofensas e as agressões. Quando vi já estava envolta nesse ciclo da violência doméstica. Foi tudo muito rápido. Os homens se valem da desculpa do 'foi por ciúme' para cometerem a violência e também para se defenderem quando vão à Justiça"

A psicanalista Claudia Murta, que também é coordenadora do serviço de atendimento psicológico às mulheres vítimas de violência doméstica no Espírito Santo, lembra que a fase inicial de um relacionamento tóxico começa lenta. Primeiro vem a ironia, um pouco de ciúmes e piadas de mal gosto. "Tudo isso não parece ser violento, mas é. Nessa fase você precisa ficar atenta porque a violência pode aumentar. Se a mulher reconhece o que está acontecendo, ela ainda consegue sair desse ciclo sozinha", explica.

A advogada Giselly Bicalho comenta que os homens que violentam as mulheres são manipuladores e divertidos. Segundo ela, no começo, eles se comportam como príncipes, e, depois, mudam de atitude. "Com isso você pensa que a pessoa que está com você, e supostamente te ama, está certa de tudo o que fala. Ele começa a colocar as suas características físicas em cheque, fala da sua roupa, da cor do batom e das unhas", conta.

Giselly ainda comenta que quando ela passou por essa experiência, começou a se olhar no espelho e ver uma imagem distorcida da si. "Eles [os homens] fazem isso porque sabem que vão mexer com a sua autoestima da mulher. Eu faço terapia até hoje, mas têm coisas que não consegui superar, como o trauma que tenho com os meus seios", desabafa.

Na segunda fase do relacionamento tóxico, o homem se tornar mais agressivo. Ele pega a parceira ou ex-companheira pelo braço, puxa, agarra, coloca força e bate. "Para mim, isso era o normal, o que eu vivi em casa. Minha mãe passou por isso durante anos. Meu pai era um empresário de sucesso. Cada briga que tinha com minha mãe ele dava uma pulseira de ouro ou um carro para ela. Mesmo quando ela estava grávida de mim e durante o resguardo ele bateu nela", comenta Giselly.

O pai da capixaba morreu quando ela tinha seis anos. Em 2017, a advogada entrou em depressão depois de um relacionamento tóxico que viveu. 

Giselly Bicalho

Advogada

"Eu sofria violência psicológica dele. Ele foi me tirando da minha família e amigos e fazendo brincadeiras, piadas, falando das roupas. Uma frase que ele sempre falava comigo era: 'você nunca vai encontrar um homem melhor do que eu'. Muitas mulheres escutam essa frase. Os homens conseguem destruir a nossa vida"

No caso da Michele, nessa segunda fase, o ex-namorado invadiu o seu e-mail e a questionava sobre o passado. Ele rasgava as roupas da escritora, pois acreditava que foi um ex-namorado que a presenteou.

"O ciúme que entrou na nossa vida era um ciúme do passado, daquilo que eu tinha vivido. Eu tive fotos resgadas e deletadas do meu computador. Tudo o que era do meu passado ele tinha ciúme. Por vezes, eu me questionava por que vivi aquilo. Eu comecei a vivenciar e entrar a loucura que era a cabeça do meu ex. Ele é uma pessoa doente e que precisa de tratamento", desabafa.

Michele comenta ainda que o final do relacionamento foi muito difícil para ela. Eram xingamentos, pegadas pelo braço com violência, afastamento da minha família e dos meus amigos. "Eu estava aceitando o inaceitável. Eu me via só com aquela pessoa. Quando aconteciam as brigas, que eram muito intensas, eu não tinha com quem compartilhar o que acontecia para poder receber ajuda. Eu tinha quebrado todos os meus vínculos e as pessoas não queriam estar perto da gente", relata.

Michele Pin

escritora e ativista

"De alguma forma para não ter mais brigas eu fui me adequando a ele, até o momento em que me vi dentro de um carro no meio da Avenida Paulista, em São Paulo, com uma arma apontada para a minha cabeça. Ali eu vi que ele ia me matar e vi que tinha que virar essa chave e sair daquele relacionamento"

A cena que Michele descreve é a terceira etapa do ciclo de violência, que é a mais perigosa de todas. Nele, não basta apenas procurar ajuda. Claudia Murta explica que é preciso que a vítima tenha ajuda especializada e que um grupo de pessoas a ajude a sair daquela situação. 

Claudia Murta

psicanalista

"Ameaçar com objeto ou arma, ameaçar que vai matar a mulher, chantagem, violência sexual e abuso sexual. Esses são alguns dos indícios da terceira fase, que merece muita atenção porque o nível seguinte já é o feminicídio"

Michele conta que saiu do carro com a ajuda de policiais e dali pegou um ônibus e foi direto para o Rio de Janeiro. Quando chegou em solo carioca, tinha mais de 60 ligações do ex e muitas fotos de vômito e sangue.

"Ele dizia: 'Olha o que você esta fazendo comigo!' e 'Olha o que você me fez fazer!' nas mensagens. Passavam-se cinco minutos e ele me mandava outras mensagens dizendo que não conseguia viver sem mim e que eu era o amor da vida dele. Foi então que decidi  trocar meu número para ele não ter mais contato comigo", relata.

Já o término de Giselly, que mora em Vitória, foi no interior do Rio de Janeiro, cidade natal do ex. Ela lembra que tudo começou com uma briga. Eles gritavam um com o outro. Enquanto ela chorava, ele ria e levantava dúvidas sobre os sentimentos que a capixaba tinha por ele.

"Eu comecei cortar meus braços e barriga com as unhas, na época elas eram bem grandes. Eu já estava destruída por dentro, mas me destruí por fora também. No dia seguinte voltei para Vitória e nunca mais falei com ele", diz.

SAIBA COMO PEDIR AJUDA

  1. 01

    DELEGACIAS ESPECIALIZADAS

    A vítima pode procurar ajuda nas delegacias especializadas de atendimento à mulher. Caso não tenha no município, pode procurar qualquer delegacia. A polícia também pode ser acionada pelo Ciodes, no número 190, e, no Disque-Denúncia, pelo 181.

  2. 02

    DEFENSORIA PÚBLICA

    A Defensoria Pública também é uma porta de entrada nos municípios que tenham o órgão implantado. Na Grande Vitória foi criado o Núcleo Especializado de Defesa dos Direitos da Mulher da Defensoria Pública do Estado do Espírito Santo (Nudem). A instituição pode ajudar com a elaboração de requerimentos de medidas protetivas de urgência, com a propositura do divórcio, guarda dos filhos menores e encaminhamentos para atendimento psicossocial. É possível pedir assistência até pela internet.

  3. 03

    MINISTÉRIO PÚBLICO

    A mulher que sofre com a violência doméstica também tem como primeira porta de entrada o Ministério Público do Espírito Santo. Atualmente, existe o Núcleo de Enfrentamento às Violências de Gênero em Defesa dos Direitos das Mulheres (Nevid).

  4. 04

    CRAS

    O Centro de Referência de Assistência Social (Cras) e o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) são de responsabilidade da prefeitura de cada município. Eles oferecem atendimento psicossocial gratuitamente.

O QUE É O TODAS ELAS?

O projeto Todas Elas nasceu em 2019, dentro da redação de A Gazeta, após os jornalistas notarem a necessidade de tratar os casos de violência contra a mulher como um problema específico, que necessita ser discutido com profundidade e envolvendo um maior número de pessoas na conscientização.

Em 25 de setembro, A Gazeta lançou a página especial do Todas Elas, que quer, além de dar visibilidade aos crimes motivados pelo gênero, auxiliar as vítimas para que consigam encerrar o ciclo da violência e conquistem novas perspectivas de vida através da informação, empoderamento e oportunidades. Confira em: www.agazeta.com.br/todaselas.

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