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Como terminar um relacionamento abusivo e não voltar para o abusador

A tarefa não é simples, tampouco diz respeito apenas à mulher vítima da violência. Para conter essa situação, é preciso uma rede de apoio

Vitória
Publicado em 08/12/2020 às 09h22
Atualizado em 08/12/2020 às 09h22
Violência; Mulher; Violência doméstica; Relacionamento abusivo
A relação abusiva não se caracteriza exclusivamente por agressões físicas. Gritos, xingamentos e ameaças também sinalizam a violência. Crédito: KamranAydinov/Freepik

Difícil encontrar uma mulher que não tenha vivenciado uma relação abusiva. Das cenas de ciúmes ao feminicídio, essas são marcas de relacionamentos sustentados no poder de um sobre o outro, em vez de afeto e respeito. Também não é fácil o caminho para sair de um enredo de violência, muitas vezes naturalizado ou forjado como ato de amor. Mas é, sim, possível mudar o rumo dessa história e não voltar para o abusador.

Pôr fim a um relacionamento abusivo, porém, não está nas mãos apenas da mulher vítima da violência. Ela precisa de suporte, tanto da família e amigos quanto do poder público. Com acolhimento, sem julgamentos.

Renata Bravo, mestra em Direitos e Garantias Fundamentais e idealizadora do coletivo Juntas e Seguras, diz que o grupo criado para dar apoio a meninas e mulheres na pandemia é uma alternativa, inclusive com indicações de locais para buscar ajuda.

Renata Bravo

Mestra em Direitos e Garantias Fundamentais e idealizadora do coletivo Juntas e Seguras

"O nosso papel é mostrar o que acontece a outras mulheres e dizer ‘você não está sozinha!’ Querendo e podendo, tem como sair desse relacionamento abusivo"

Renata, que também é articulista em A Gazeta, reconhece, no entanto, que não se trata de uma tarefa supersimples.

Renata Bravo, idealizadora do coletivo Juntas e Seguras e mestra em Direitos e Garantias Fundamentais
Renata Bravo observa que a forma de saída de um relacionamento abusivo depende em boa medida de uma rede de apoio. Crédito: Acervo pessoal

“Não é só arrumar as coisas e sair de casa porque, além da dependência emocional, muitas vezes também há a dependência econômica; é ele quem controla o dinheiro. A forma de saída para essa mulher é mais um movimento externo que dela. O que quero dizer é que toda a sociedade, os coletivos, a mídia, como neste projeto Todas Elas, têm que dizer ‘se está em um relacionamento abusivo, tem muita gente para te apoiar’.”

REDE DE APOIO

A mulher, orienta Renata, deve sempre ter uma amiga, uma colega de trabalho de quem seja confidente e possa contar o que se passa na relação. O problema, na maioria das vezes, é que em uma união marcada por abusos, um dos atos de violência é justamente afastar a companheira da família e amigos, a deixando isolada.

“Sendo amiga ou parente de uma mulher numa relação abusiva, é importante que se faça presente, ainda que não concorde com o relacionamento. Nossa tendência é nos afastar, afirmando ‘estou falando e ela não enxerga’. Mas é fundamental mudar essa postura e dizer ‘quando precisar, estou aqui.’ A rede de apoio não é só do Estado, de quem é dever amparar, mas somos todos nós”, frisa.

Doutora em Psicologia e professora da Faesa, Mônica Nogueira ratifica esse posicionamento, ao comentar a dificuldade de se quebrar o ciclo de violência.

“O término é um momento crucial da relação abusiva e digo que, sem intervenção social, sem apoio, a mulher não vai conseguir. Em geral, as pessoas não entendem e julgam: ‘vou ajudar e amanhã vai estar com ele de novo’", afirma.

FEMINICÍDIOS

Dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp) apontam que, dos 81 assassinatos de mulher até o dia 8 de novembro registrados no Espírito Santo, 19 foram validados como feminicídio pela Polícia Civil. Na maioria das ocorrências, o companheiro (38%) ou ex-marido (38%) estiveram envolvidos nas mortes.

Mônica Nogueira

Doutora em Psicologia e professora universitária

"Isso não é um problema individual da mulher; a violência é como um problema de saúde pública, da sociedade. Se não houver intervenção, muita mulher ainda vai morrer. Está todo mundo envolvido e, tantas vezes tiver que ajudar, se meter, não julgar, acolher, é isso que precisa ser feito"

Essa demonstração de apoio e de estar presente é imprescindível para a mulher se sentir fortalecida a sair do relacionamento. Brunela Vincenzi, professora do Departamento de Direito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e coordenadora do Laboratório de Pesquisa sobre Violência contra Mulheres (LAPVIM) da instituição, atesta que esse é um contexto que muitas vezes se mostra mais seguro para as vítimas, uma vez que, em sua avaliação, o poder público não tem conseguido garantir a proteção permanente.

“Se houvesse uma estrutura de segurança completa, a melhor coisa, ao primeiro sinal de violência, seria ir à delegacia e fazer a denúncia, pedir ordem de afastamento. Mas eu tenho percebido que, mesmo com a possibilidade de denúncia, tem-se optado por outra estratégia porque não há estrutura para proteger a mulher depois. Não tem ninguém que garanta que o agressor vai ficar afastado ou que, se em algum momento chegar perto, não vai matá-la”, analisa.

Assim, Brunela é mais uma especialista que recomenda que as mulheres não deixem de contar para a família e amigos se estiverem vivenciando alguma situação abusiva. Às vezes, o silêncio, por vergonha ou medo, é o que também favorece a violência e dificulta a tomada de decisão pela saída do relacionamento. Contando com uma rede de apoio, a vítima se sente em melhores condições para dar o passo em direção a uma vida sem abusos físicos e emocionais.

CULTURAL

Contudo, o que muitas vezes ocorre é que a mulher, mesmo numa união marcada pela violência, precisa enfrentar a pressão social para que mantenha a relação, principalmente quando há filhos envolvidos. É sobre os ombros dela que fica o peso de garantir o “felizes para sempre”, ainda que seja constantemente agredida. Há uma questão cultural, o machismo prevalecendo na conduta da sociedade, constata Renata Bravo, do Juntas e Seguras.

“Desde pequenas, as mulheres são construídas para viver um sonho de princesa, sonho de casamento, reproduzido por gerações, e não se veem saindo desse papel. Na nossa cultura, casamento é sagrado e para sempre.”

Mônica Nogueira, doutora em Psicologia, psicóloga clínica e professora da Faesa
A psicóloga Mônica Nogueira avalia que a cultura machista reforça condutas violentas. Crédito: Acervo pessoal

A psicóloga Mônica Nogueira completa: “ela se sente envergonhada porque não quer manter a violência, mas o relacionamento. Terminar representaria o fracasso. É preciso sair dessa idealização, que também coloco na conta da cultura; uma reprodução da cultura machista. Mas, quando se fala em sair do relacionamento abusivo e não voltar, parece algo como ‘ela que lute!’ Na verdade, é preciso mudança de comportamento dos agressores, da sociedade.”

No ciclo do violência, lembra Mônica, ainda tem a fase da “lua de mel”, que é aquele momento em que o agressor se declara arrependido. Diante da própria vulnerabilidade e falta de suporte, somadas às pressões para restabelecer o relacionamento, muitas mulheres acabam cedendo aos apelos do ex-companheiro.

“Quando se tem uma vida conjunta, é muito mais difícil dizer esse ‘não’. O término do relacionamento é o maior ‘não’ que a mulher diz para o agressor, e ela precisa de apoio para fazer isso”, sustenta.

PODER PÚBLICO

Terminar uma relação de abusos não é igual ao final de um relacionamento saudável. É preciso colocar o pé no chão, diz a psicóloga, sair da emoção e entender que está em uma situação de perigo, que precisa buscar ajuda, seja se abrindo com alguém, seja procurando o poder público ou um advogado.

E quem se dispuser a ajudar, talvez tenha que pagar uma passagem para esta mulher sair da cidade, por exemplo, ou recebê-la em casa por um período. “Por isso, repito, se não há intervenção, apoio, dificilmente a vítima de violência consegue sair dessa relação. E, importante que se diga: como o término não é de forma amigável, também não é possível ficar mantendo contato com o ex”, adverte Mônica Nogueira.

Conceição de Maria Mendes Andrade, superintendente e cofundadora do Instituto Maria da Penha (IMP) - organização voltada ao combate à violência contra a mulher -, acrescenta que as vítimas também precisam de políticas públicas para acabar com os abusos, porque o ciclo não vai se romper por si só.

“Às vezes, ela está distanciada da família e amigos, não consegue nem se abrir, ou quando fala, muitas vezes é desacreditada. Isso é muito grave também. Acreditar nos relatos dessa mulher é o primeiro passo para ajudá-la a romper com o ciclo. Também é preciso ter políticas públicas e informá-la sobre a sua existência; acompanhá-la em centros de assistência da mulher; dar apoio efetivo”, relaciona.

No Espírito Santo, há 15 unidades especializadas da Polícia Civil para atendimento a mulheres vítimas da violência. Entre outras medidas, nesses locais pode ser feito o encaminhamento delas para a Casa Abrigo, um espaço de proteção àquelas em risco iminente de morte devido à violência doméstica. O local faz o acolhimento temporário de mulheres e seus filhos de até 14 anos.

Mas, antes que seja necessário chegar a esse momento, a psicóloga Mônica Nogueira ressalta que a mudança tão propagada e necessária só vai acontecer quando a educação de meninas e meninos deixar de perpetuar conceitos de superioridade do homem sobre a mulher.

“E, para elas, vai passar um pouco por essa conversa de autoestima, autocuidado, saber que não precisa de outra pessoa para ser feliz. A mulher poder estar bem sozinha não é muito fomentado na sociedade. Até para investir em uma boa relação, se quiser, é preciso estar bem consigo. Porque, quanto mais fragilizada, é quase que uma armadilha para encaixar esse homem que, logo, vai dar sinais de abuso”, conclui.

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