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"Agressor gosta de lesar face da mulher para constrangê-la", diz médica

Pesquisa realizada em hospital no Estado mostra que trauma de face é sinal comum de agressão a mulheres e  acende alerta para risco de feminicídio

Publicado em 03/11/2020 às 14h50
Violência contra mulher: ferramenta vai coletar histórias sobre assédio, agressão e discriminação contra o público feminino
Violência contra mulher: ferramenta vai coletar histórias sobre assédio, agressão e discriminação contra o público feminino. Crédito: Pixabay

Um tapa na cara, além de ferir fisicamente e moralmente a vítima é um sinal de alerta. Uma pesquisa feita no hospital Jayme Santos Neves, na Serra, mostrou que as lesões no rosto em mulheres são um sinal comum de violência doméstica e que indica que ela é uma potencial vítima de feminicídio.

Foram analisados 62 prontuários eletrônicos de mulheres entre 17 e 60 anos admitidas no hospital Jayme dos Santos Neves, na Serra, e que confirmaram que as lesões sofridas foram causadas pelos companheiros ou ex-companheiros.

A médica cirurgiã Gabriela Mayrink, que atua no hospital, coordenou a pesquisa feita foi duas alunas do curso de odontologia da Faesa.

“O agressor gosta de lesar a face para inibir a mulher, constrangê-la, para que ela fique com vergonha de sair de casa. Há um elemento de humilhação. Muitas vezes os agressores vão ao hospital junto com elas, para impedi-las de denunciar”, diz.

Ela afirma que, no escopo do estudo, só foram avaliados os casos de mulheres que admitiram ser vítima de violência doméstica. Mas ressalta que o número de casos que chegam à unidade com essas características é bem maior.

“Existem alguns sinais clínicos que fazem desconfiar que a história que elas contam não é real. A mulher diz que caiu da escada, mas só tem lesão no rosto, por exemplo. Ou conta que caiu de bicicleta, mas não apresenta abrasão, que é o ‘ralado’ comum nesses casos, e sim o roxo no rosto”, aponta.

Ainda de acordo com o estudo, os agressores atingem principalmente a parte central do rosto das mulheres, chamado de “terço médio”. A médica afirma que essa é uma região mais fácil de fraturar utilizando as mãos do que a parte inferior (queixo e mandíbula), que requerem mais força.

Dra. Gabriela Mayrink é cirurgiã em hospital da Serra e coordenou pesquisa sobre agressão contra a mulheres
Dra. Gabriela Mayrink é cirurgiã em hospital da Serra e coordenou pesquisa sobre agressão contra a mulheres. Crédito: Divulgação

Os sinais e sintomas mais observados nos prontuários analisados foram o edema (56,5%); equimose periorbital (35,5%) - tipo de hematoma que se forma ao redor dos olhos após um trauma na região superior da face; dorso nasal desviado (22,6%) e hematoma (16,1%).

Outro dado que aponta para a brutalidade dessa violência foi a presença das fraturas. Das 62 mulheres incluídas no estudo, 47 tiveram algum osso quebrado. Em sete casos as fraturas foram múltiplas.

A médica cirurgiã explica que, muitas vezes, o medo do agressor ou a vergonha de sair de casa com as marcas da violência no rosto, impedem que as mulheres procurem tratamento adequado a tempo.

“Às vezes elas chegam ao hospital uma semana depois do trauma e aquela fratura óssea já se transformou em sequela, ou seja, o osso já cicatrizou da forma errada”, afirma.

Ela alerta que, em geral, mulheres que vão ao hospital com lesões no rosto já sofreram outros tipos de violência doméstica. A médica alerta para que serviços de saúde fiquem atentos aos sinais e incentivem que a mulher denuncie o agressor para romper o ciclo e evitar um final trágico.

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