ASSINE

Do ciúme ao feminicídio: como um relacionamento amoroso acaba em morte

O sentimento de posse, ainda muito romantizado na sociedade, é o primeiro indício de que a relação pode caminhar para um desfecho trágico

Vitória
Publicado em 04/12/2020 às 05h00
Atualizado em 04/12/2020 às 07h58
Casal; ciúmes; celular
Controlar o uso do celular é uma conduta de quem não enxerga a relação como uma parceria e, sim, um vínculo de poder. Crédito: Way Home Studio/Freepik

Século XXI, muitos avanços que asseguram a liberdade individual, mas, ainda hoje, o ciúme é considerado prova de amor. Se o parceiro demonstra insatisfação porque a mulher atrai outros olhares, ou por ser expansiva no seu convívio social, há quem acredite que nada mais é que manifestação de afeto. Entretanto, é justamente o contrário. O sentimento de posse, bastante romantizado na sociedade, é o primeiro indício de que a relação pode caminhar para um desfecho trágico: o feminicídio. 

Controlar a roupa, a maquiagem, as companhias, as redes sociais, o uso do celular, o trabalho é uma conduta de quem não enxerga  a relação como uma parceria, e sim um vínculo de poder. "Há uma ideia errada de que, se não tem ciúmes, o outro não gosta de mim. É um sentimento baseado na posse, e o primeiro sinal de que não estou considerando o outro como pessoa, mas como objeto. E todas as violências saem desse princípio. O ciúme é um sinal perigoso, um alerta", ressalta a psicóloga Adriana Müller, comentarista da CBN Vitória. 

Conceição de Maria Mendes de Andrade, superintendente e cofundadora do Instituto Maria da Penha (IMP) - organização que, entre outras atividades, atua no combate à violência contra a mulher - observa que a romantização do ciúme ocorre em todas as fases da vida, porém, cada vez mais jovens têm sido subjugadas em relacionamentos abusivos que começaram com atitudes ciumentas. 

"A violência doméstica tem acontecido cada vez mais cedo, ainda no namoro. As meninas acham bonito que, se tem ciúmes, é porque se preocupam com elas, e não conseguem identificar o problema. É preciso detectar logo, para poder conseguir romper o ciclo da violência que começa desse jeito: ciúmes exacerbados, controle de tudo o que a mulher faz", adverte.

A violência, explica Conceição de Maria, dificilmente começa com agressões físicas. Essas são a ponta do iceberg, são as que aparecem. Antes, a mulher  já passou por violências psicológica, moral e sexual que, segundo ela, deixam marcas na alma. 

Conceição de Maria Mendes de Andrade

Superintendente e cofundadora do Instituto Maria da Penha (IMP)

"Infelizmente, é um ciclo. Pouco a pouco até chegar às violências mais graves "

A superintendente do IMP conta que, quando a mulher é agredida, muitas vezes até percebe que precisa deixar o abusador, mas, então,  entra em uma nova fase do relacionamento: a "lua de mel". É aquele momento em que o agressor se declara arrependido, e diz que vai mudar. Pede desculpas, dá presentes, leva para passear, fala dos filhos.

Conceição de Maria Mendes de Andrade, co-fundadora e superintendente do Instituto Maria da Penha (IMP)
Conceição de Maria observa que, cada vez mais jovens, as mulheres têm vivenciado situações de violência. Crédito: IMP/Divulgação

"A mulher acredita porque quer que o relacionamento volte a ser como antes, quer de volta aquela pessoa que escolheu para ser seu companheiro. É por isso que tem esperança de que as coisas vão mudar. Sem contar que existe o fator social, uma pressão muito grande para que ela leve adiante o relacionamento, sobretudo quando há filhos. Até ela entender que não há nada que faça que vai fazê-lo mudar, o ciclo de violência persiste por anos", constata Conceição de Maria. 

GATILHO

Brunela Vincenzi, professora do Departamento de Direito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e coordenadora do Laboratório de Pesquisa sobre Violência contra a Mulher (LAPVIM) da instituição, avalia que o ciúme é o gatilho para muitos casos de feminicídio no Estado. Embora não disponha de dados estatísticos que façam a relação das mortes com esse sentimento, sua percepção se baseia na experiência do dia a dia.

Não é raro, observa Brunela, casos de violência em que a mulher é assassinada porque o ex-companheiro, inconformado com a separação, tem ciúmes por vê-la sair, trabalhar, se divertir, se relacionar com outras pessoas. E esse sentimento de posse, diz ela, provavelmente, já se manifestava antes mesmo do término da relação.

O comportamento de relação de poder é reflexo do patriarcado, um sistema social que, aponta Brunela, reforça a concepção de que o homem tem domínio sobre o corpo da mulher e sobre tudo o que ela faz. Apesar de avanços na sociedade, ainda há um longo caminho a percorrer para mudar essa realidade. A professora lembra que não faz muito tempo o próprio Direito tolerava o homicídio de mulheres, ao descriminalizar o assassinato e justificá-lo como um "ato passional". Era assim até a criação da Lei do Feminicídio, há apenas cinco anos. 

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes e coordenadora do Laboratório de Pesquisa sobre Violência contra a Mulher (LAPVIM) da instituição

"Como o Direito entendia: o homem sendo ferido na sua honra, por achar que a mulher o estava traindo e, num ato de ciúmes, estaria autorizado a praticar um homicídio; era um crime passional. A Lei do Feminicídio chega para dizer justamente o contrário porque o ato, nessas condições, é muito mais grave"

Mesmo com a mudança na legislação, Brunela percebe que os operadores do Direito ainda têm muitas dificuldades em indiciar o indivíduo no crime de feminicídio, e a maioria das mortes das mulheres acaba registrada como homicídio, abrandando a punição numa eventual condenação do acusado. 

DIÁLOGO E CONFIANÇA

A psicóloga Adriana Müller reafirma que, em uma sociedade machista com a brasileira, o ciúme é naturalizado e, para que não chegue a episódios mais graves de violência, e até morte, é fundamental que essa conduta seja contestada logo no início do relacionamento. 

A psicóloga Adriana Müller no Encontro do Saber
A psicóloga Adriana Müller ressalta que os relacionamentos têm que ser baseados na confiança. Crédito: Monica Zorzanelli

Ao primeiro sinal de ciúmes, ressalta a especialista, é preciso conversar. Na hora, não adianta porque os ânimos vão estar inflamados, mas na primeira oportunidade que houver. É necessário esclarecer o motivo da conduta.

"E tem que perguntar o porquê desse tipo de atitude, se vale a pena continuar juntos, e o que é possível fazer para se respeitarem mutuamente; as individualidades precisam ser respeitadas e preservadas", orienta Adriana, que completa: "relacionamento de parceria é baseado na confiança; o ciúme é o oposto."

Correção

4 de Dezembro de 2020 às 07:58

No título desta reportagem, a palavra ciúme estava no plural e foi corrigida para o singular. 

A Gazeta integra o

Saiba mais

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.